Como é transmitir um festival de grande porte?

O Diretor de Relações Internacional do festival Sziget, o maior festival da Hungria, András Berta, conversou com a IQ Magazine sobre como funciona a transmissão de um festival ao vivo e quais são suas vantagens e desvantagens. Confira o relato:

Em 2012, o Sziget foi abordado pelo Google para ser um dos primeiros festivais europeus a oferecer cobertura ao vivo. Um grande desafio ao vivo para nós, mas definitivamente muito emocionante. O acordo era OK, então nós começamos a nos familiarizar como termos como “retransmissão” ou “transmissão redundante de sinal”. O estúdio no festival parecia o Centro Espacial Kennedy, nós tínhamos três equipes de câmeras trabalhando no local e alguns dos melhores engenheiros de som do país para garantir que a transmissão de áudio ficaria impecável. O resultado foi 5 milhões de visualizações em uma semana, um terço disso vindo da Rússia, onde – naquele ano – mal conseguimos vender 500 ingressos.

Parece divertido e a parte tecnológica é até administrável. Você encontra os caras corretos, ou ao menos os que vão fazer as imagens para os telões de LED, e hoje nem é tão importante transmitir por satélite. Você irá encontrar algumas boas plataformas de transmissão online, então definitivamente isso não se resume apenas ao YouTube. Se você é grande o suficiente e capaz de mudar a sua transmissão para palcos diferentes, você pode ficar bem confiante que a cobertura da tarde será completa. É claro que você também pode incluir materiais gravados, bons vídeos de imagens, jogos, anúncios e qualquer coisa que você conseguir encontrar.

Então qual é a parte difícil? Como sempre acontece com festivais, o maior desafio começa as seis da tarde, a hora quando os acionistas começam a olhar para a renda.

Se você acha que booking é difícil, bem, fazer os acertos dos direitos de transmissão ao vivo são ainda mais difíceis, já que simplesmente não existem padrões de negócio ou de termos legais para isso.

Atitudes típicas que você encontrará são:

a) A banda que você ama: feliz em cooperar, agente assina um contrato simples de uma página, e você está no ar

b) A banda que você consegue trabalhar: agente está no comando, talvez até assinando o seu contrato, mas já perguntando pelo dinheiro extra e talvez restrições, como bloqueio geográfico para que o vídeo só fique disponível para alguns países

c) A banda da gravadora grande: a gravadora afirma que tem todos os direitos e irá decidir… mas a luz nunca parece ficar verde.

 

É claro que existem diversos motivos para a banda querer ou não estar em uma transmissão ao vivo. Por exemplo, você sempre deve respeitar o desejo de proteger canções novas. Eu pessoalmente já corri do palco principal até o centro de transmissão algumas vezes, com o rádio em mãos, tentado ficar em contato com o tour manager para garantir que deixaríamos qualquer canção nova de fora da transmissão. E não tive problemas com isso!

Eu acho que a zona problemática começa com o exemplo c) quando as grandes gravadoras começam a usar erroneamente o termo “360 graus”. Como sou idealista, eu achava que a ideia do acordo 360 se tratava de fornecer um serviço profissional para suas bandas, mesmo que seu papel original como gravadora acabasse aí. Mas quando você fala com um gigante – não o escritório central, mas a filial local – você consegue se encontrar facilmente em 1992, lidando com arrogância constante e respostas confusas: “você não tem ideia do que está falando”, “nós somos donos de todos os direitos”, “precisamos falar com o agente primeiro”, “não você não pode falar com o agente”, “nossa sede decidiu não fazer a transmissão sem nos dar o motivo” e assim vai. Então, depois de vários longos meses você ainda não tem certeza se o cara certo no escritório certo em Nova York efetivamente recebeu um briefing correto sobre o seu festival e sobre o que a transmissão ao vivo realmente significa.

Nós estamos tentando criar conteúdo com valor, que vale ouro puro nos dias de hoje, para todos os envolvidos

Além disso, a base legal para a reprovação da gravadora pode ser o contrato entre eles e a banda que – é claro – você não pode ver. Você tem que simplesmente aceitar a palavra final da gravadora, por que sim. Eu acho que quero acreditar, mas precisa realmente ser tão difícil? E então, se você der sorte, você pode receber um contrato que fala sobre as filmagens por breves 15 páginas… enquanto tudo o que você quer é uma transmissão ao vivo, e promover a banda dele às suas custas. E sem esquecer que o ponto mais importante talvez seja: nós estamos tentando criar conteúdo com valor, que vale ouro puro nos dias de hoje, para todos os envolvidos. Então não é fácil aceitar que nós estamos fazendo isso contra a corrente, criada pela política sem muita visão de uma gravadora. O resultado não é bom para ninguém, já que o conteúdo sofre, enquanto o espectador e o patrocinador ficam de fora.

Em 2016 eu acredito que ainda estamos em uma zona cinzenta quando se trata de direitos de transmissão, simplesmente porque a indústria ainda está longe de ser homogênea. Jogadores diferentes tem cartas diferentes nas mãos e isso pode resultar em perder a mão em vários casos. Você pode tentar forçar agentes quando bookam o show para que o contrato inclua direitos de transmissão. Isso é realista? Não tenho certeza. Talvez todo o potencial da transmissão ao vivo esta evaporando aos poucos, mas com certeza está acontecendo, então qual é o problema? Talvez 1.5 milhões de adolescentes russos que você não teria atingido de outra maneira…