Conheça o incrível processo de composição de Michael Jackson

Se você já escutou a primeira demo de “Beat It”, você deve conhecer o extraordinário processo de composição de Michael Jackson – onde ele constrói cada elemento de uma faixa com a sua voz. Cada nota de cada acorde, harmonia, melodia, baixo e até o ritmo com beat-boxing. As harmonias juntas são impressionantes, como você pode ver abaixo:

Jackson não sabia ler ou escrever partituras, mas ao contrário do que muitos dizem, ele sabia tocar um pouco alguns instrumentos – ele foi creditado em seu álbum “HIStory” por tocar teclados, sintetizadores, guitarra, bateria e percussão – mas nenhum com muita proficiência. Ele não tinha nenhum treinamento formal em composição, mas o treinamento árduo dado por seu pai provavelmente fez com que ele tivesse mais treinamento do que qualquer outro artista.

Mas, assim como Mozart conseguia ouvir sinfonias inteiras em sua cabeça, Jackson tinha uma ideia feita da canção antes de colocá-la no papel. “A letra, as cordas, os acordes, tudo vem junto em um momento como um presente que é colocado em minha cabeça, e é como eu ouço,” disse Michael durante seu depoimento na corte do caso “Dangerous” em 1994.

Um time de excelentes engenheiros e produtores trabalhavam nas faixas que ele trazia para o estúdio, mas até eles ficavam impressionados com a genialidade do cantor. O engenheiro de som Rob Hoffman, descreve o processo:

“MJ apareceu uma manhã com uma nova canção que ele tinha escrito durante a noite. Nós chamamos um guitarrista, e Michael cantou cada nota de cada acorde para ele. “Esse é o primeiro acorde, primeira nota, segunda nota, terceira nota. Essa é a primeira nota do segundo acorde, segunda nota, terceira nota, etc etc. Então nós testemunhamos ele dando a performance vocal mais sincera e profunda, ao vivo na sala de controle através de um microfone SM57,” disse Hoffman.

“Ele cantava todo o arranjo de cordas, todas as partes. Steve Porcaro me disse uma vez que ele testemunhou MJ fazendo isso com a seção de cordas na sala. Ele tinha tudo em sua cabeça, harmonia e tudo. Ele realmente cantava todo o arranjo em um gravador de micro-cassette com paradas e preenchimentos.”

Uma das mais interessantes e reveladoras entrevistas sobre o jeito que Michael criava seu trabalho é o audio do caso “Dangerous” no tribunal. A compositora Crystal Cartier levou o cantor para o tribunal por plágio e durante o julgamento, foi pedido que Michael descrevesse seu processo de composição. “Eu vou apenas cantar a parte do baixo no gravador de fitas,” Ele disse entre pedaços de melodia que cantava, em uma afinação perfeita. “Eu pego a linha do baixo e coloco os acordes e a melodia em cima da linha do baixo, e é isso que inspira a melodia,” ele explicou antes de fazer beat-box no tribunal. (confira no vídeo abaixo, em inglês)

Sobre a canção Billie Jean ele diz: “Escutem, vocês estão ouvindo quatro baixos aqui, todos com quatro personalidades diferentes, e é isso que lhes dá um caráter diferente, mas também dá muito trabalho.” Nesse ponto, ele já tinha escrito centenas de canções e disse que geralmente ele trabalhava em cinco canções simultaneamente, sempre. Para saber mais, confira o vídeo completo acima.

Aqui está mais um exemplo do talento para beat-boxing de Michael para mostrar como ele criou “Tabloide Junkie”. O vídeo é de uma entrevista de 1995 com Diane Sawyer, e é impressionante como os sons são criados por um humano e não uma máquina:

É claro que você não precisa ter treinamento formal em música para ser um artista de sucesso. Paul McCartney vendeu mais de 100 milhões de discos sem saber escrever partituras. E existem diversos outros músicos que encontraram jeitos criativos de escrever música sem realmente escrever os acordes em uma folha de papel – ou eles simplesmente gostavam de sair do caminho tradicional. Radiohead compôs sua canção “Idioteque” com um esqueleto criado por um trecho de uma gravação que Jonny Greenwood deu para Thom Yorke (Greenwood é o único músico formado no grupo). “Existe esse pedaço de 40 segundos no meio da canção que é simplesmente genial, e eu apenas o cortei e foi isso,” explicou Yorke. Outros exemplos incluem OMD, que criou seu próprio sistema de anotação de partituras e Jason Pierce, vocalista principal do Spiritualized, que compôs todas as partes orquestradas de “Let It Come Down” as cantando em um gravador de fitas. Ian Macculloch escreveu “The Killing Moon” invertendo os acordes de “Space Oddity” de David Bowie, enquanto o rapper Goldie basicamente desenha suas faixas, usando diagramas estranhos e quadrados para escrever.

Michael Jackson criou alguns dos melhores hinos do pop de todos os tempos. Como qualquer pessoa que já tentou escrever uma canção sabe, é bem difícil, mesmo que você conheça os acordes. Que ele conseguia compor tão bem sem conhece-los, só mostra que ele realmente tinha um dom muito especial.