Entrevista com a polivalente Juliana Mello

Juliana Mello é produtora de shows e eventos com uma década de experiência e foco em logística artística. Hoje, atua como gestora de conteúdo dos cursos da On Stage Lab e trabalha como freelancer em shows internacionais e eventos corporativos. Juliana é formada em jornalismo e já trabalhou produzindo grandes eventos e shows nacionais e internacionais, além de atuar como colaboradora em festivais e outros projetos que envolvem música. Como jornalista, participou da cobertura de mais de 100 shows e eventos ao longo da carreira. Entre os shows e festivais em que já trabalhou estão Motörhead, Scorpions, Symphony-X, Coal Chamber, Lady Gaga, Planeta Terra, Natura Nós, Maquinária, SWU, Lollapalooza, Xxxperience, Muse, New Kids on The Block, Simple Plan, The Vaccines, Sky Ferreira, The Rolling Stones, Iron Maiden, entre muitos outros.

Juliana Mello ministra a aula do Comunicação para a Música na On Stage Lab e nos concedeu essa entrevista.

Como foi o início da sua história no mercado do entretenimento?

Eu sempre quis trabalhar nessa área, mas acabei desviando dos meus objetivos quando me apaixonei por jornalismo político na época de faculdade. Quando eu era adolescente, tinha um fanzine de música, além de viver na Galeria do Rock e adorava assistir shows ao vivo no videocassete de casa. Nessa época comecei a me encantar e a questionar como os shows eram feitos. Eu queria ficar atrás do palco. Acho que foi um pouco de vocação ou destino mesmo, porque mesmo comigo perseguindo ciência política, acabei indo parar numa gravadora e, em seguida, comecei a produzir shows.

Quem foram as pessoas que mais te influenciaram e apoiaram nessa jornada?

Tive várias pessoas, mas acho que as que me ensinaram muito foram o Paulo Baron, meu mentor na Top Link Music, a Fabiana Lian, que é minha “mãe” até hoje no mercado e sempre me recomendou muito bem – incluindo meu job em O Rei Leão, um dos meus jobs favoritos até hoje; o Peu Guimarães, com quem trabalhei na Enjoy e fiz muitos freelas ao longo dos anos, e a Bianca Freitas, que infelizmente não está mais com a gente e foi uma das minhas melhores amigas na vida. A Bianca e a Fabiana sempre acreditaram em mim e foram responsáveis pelo desenvolvimento das minhas habilidades atuais. E claro, nunca posso esquecer do meu pai: os pais da gente ficam preocupados com as nossas escolhas. Meu pai sempre acreditou que eu tinha um potencial imenso em qualquer coisa que eu fizesse; e ele sempre fala com orgulho de todos os shows que eu produzo ou que eu me envolvo de alguma maneira.

Como foi o processo de efetivação da sua carreira? Quais foram as etapas?

Preciso voltar um pouco no tempo pra explicar isso. Quando eu era moleca, eu participei de um concurso na Rock Brigade pra almoçar com o Bruce Dickinson. Mandei exatas 4632 cartas e, lógico, eu acabei ganhando a promoção e foi quando eu conheci a Fabiana Lian, que na época estava com o Bruce na turnê que culminou no show do Skol Rock em São Paulo. Perguntei pra ela como eu podia trabalhar na área e ela me mandou crescer primeiro. Anos mais tarde, eu já trabalhava em uma gravadora cuidando de assessoria de imprensa quando migrei para a área de shows; comecei fazendo listas (convidados, imprensa) e fui indo pra trás dos palcos aos poucos, ora pra ajudar a recolher coisas de camarim, ora pra ajudar numa tradução ou outra. Quando vi, estava trabalhando com um promotor e daí pra frente, fui me enfiando cada vez mais no artístico, que é uma das minha áreas de atuação hoje. Mas essa transição aconteceu aos poucos – das listas pra produção executiva foi quase uma década. É um mercado que o profissional vai ganhando a confiança dos contratantes aos poucos, e eu tive essa paciência.

Qual foi o primeiro grupo/artista para quem trabalhou? Como foi a experiência?

O primeiro show inteiro que eu fiz foi um aniversário da Kiss FM. Foi minha primeira experiência e foi linda e dolorosa! Cometi muitos erros de principiante, mas tive o amparo do meu chefe na época e aprendi que precisava ter raciocínio rápido, resistência física e mental e jogo de cintura logo ali, naquele primeiro trabalho. Os artistas eram muito amáveis e compreensivos comigo, mas fiquei em várias situações complicadas por ser meu primeiro trabalho como produtora.

Provavelmente você já tenha estremecido por estar trabalhando com algum artista ou grupo que admira muito. No início foi difícil se controlar e se mostrar 100% profissional, ou conseguia separar isso com facilidade?

Uns anos atrás eu finalmente realizei o meu sonho, que era trabalhar em um show do Iron Maiden. Eu estava apta para qualquer função que me dessem, e acabei ficando com camarins. Mas não achei difícil porque eu, apesar da admiração eterna e paixão intensa que tenho pela banda, deixei meu lado fã na porta do estádio. Eu me acostumei com isso. Eu sou fã de muita coisa, e sempre consegui separar o lado fã do lado profissional, então bastou eu acionar esse “botão” na minha cabeça pra ficar concentrada na minha função, que era de abastecer o camarim dos caras. Eu pensei assim: se eu fui capaz de fazer a mesma coisa em The Rolling Stones, que é o maior dinossauro da história do rock and roll, o que me impede de fazer o Iron Maiden? E realmente, não impediu. Eu não abordei nenhum integrante da banda, não fiquei com cara de pastel sonhando acordada, nada. O lado fã só voltou quando meu trabalho já tinha terminado e eu estava na pista curtindo o show e chorando, como sempre.

Nessa, como em qualquer carreira, há contratempos. Quais foram os que mais te marcaram? Como contornar situações desse tipo?

Acho que foi um festival que trabalhei em coordenação logística uns anos atrás e deu ruim de todo o lado. Eu era contratada apenas, não tinha nada a ver com o cerne do problema, mas tive a confiança do mercado abalada com isso. Levantar a cabeça e provar com trabalho que nada do que boatos diziam foi a solução que encontrei. Eu já passei por situações de bullying quando era criança que, com certeza, foram muito piores, e com isso, eu adotei uma postura automática de sair do fundo do poço o mais rápido possível. A diferença é que antes, eu lidava com crianças que não tinham a devida educação em casa. Como mulher e profissional, as contas acumulam e aí você lida com concorrência louca pra te “derrubar” sem escrúpulos. Foi um período especialmente cruel pra mim, especialmente com isso de cyberbullying. Mas hoje eu uso esse tipo de problema como um case e como uma forma de mostrar pros meus alunos que esse tipo de coisa pode acontecer e como se prevenir para não sofrer com os mesmos problemas que sofri. E pra contornar, precisa ser brasileiro e não desistir nunca! A mesma paciência que tive quando estava começando, eu me obriguei a ter para que o momento ruim passasse. E contei com um mercado que sabe a diferença entre bom profissional e evento que dá errado. Mas o melhor sempre é trabalhar e entregar com excelência todos os projetos, mesmo os que podem vir a dar errado, porque é isso que dá margem para você continuar a trabalhar e continuar a ser bem recomendado.

Como avalia o atual campo profissional do Show Business?

Esse sempre foi um mercado difícil e fechado, mas agora, com o crescimento constante dos shows e eventos ao longo do ano, tem sido um pouco mais fácil acessá-lo para os novos profissionais. O que muita gente não compreende é que esse é o mercado em que a capacidade de networking é mais exigida do que em outros mercados. Muita gente desiste rápido por conta dessa falta de compreensão. Outra coisa importante desse campo é a postura profissional. Alguns novos profissionais acabam cometendo erros de postura: ansiedade de estar ao lado de um artista, excessos durante o job e claro, uma glamourização desnecessária por uma questão de demonstração de status ou “ostentação”. Essa é uma profissão como qualquer outra, com suas diferenças, mas é preciso ter a cabeça no lugar, bons contatos e muita disposição. Preguiça ou rotina não são permitidas nesse meio.

A ON STAGE LAB é a primeira escola especializada no mercado brasileiro que contém vários cursos, intensivos e extensivos. O curso que você ministra é o de Comunicação para a Música. Conte mais sobre ele.

Esse é um curso formatado para aprender como funciona as diferenças e sinergias entre os tipos de comunicação: para divulgação de shows, álbuns de artistas, eventos corporativos, feiras, eventos, etc. O funcionamento das redes sociais e o trabalho de relações-públicas agora também fazem parte do conteúdo. Também ensino como fazer o uso de todas essas ferramentas, estratégias, além de dar alguns exercícios e receber convidados que contam um pouco mais sobre essa área. Na próxima rodada serão duas turmas uma no final de semana e outra durante a semana à noite e os convidados estão em ambas: José Norberto Flesch, editor do jornal Destak e Guilherme Werneck, responsável pelas redes sociais da Time For Fun.

A quem se destina esse curso?

Esse é um curso destinado a vários tipos de público: desde jornalistas, relações-públicas ou publicitários formados ou em formação, que buscam um complemento mais especializado em música como para músicos que estão gerindo a própria carreira ou pessoas que querem ajudar músicos a promover seus discos, shows e eventos.

Há vários ex-alunos inseridos no mercado, graças aos cursos da ON STAGE LAB. O que significa isso para a escola e para o futuro da profissão?

O que existem são setores mais fechados que outros. A parte operacional, do fan experience, sempre precisa de profissionais em volume. Já para artístico, é mais difícil, mas não impossível. Produção técnica também tem uma demanda interessante. Mas há oportunidades em todos os setores, desde que haja paciência e autoconfiança para se inserir na área desejada. Para a escola, é um grande orgulho fazer parte da formação de uma nova geração de profissionais pra esse mercado. E é importante isso para o showbusiness como um todo, já que renovações são necessárias: há profissionais entrando em época de se aposentar e a demanda continua alta por profissionais já qualificados, porque hoje em dia não há o tempo que havia antes para preparar alguém pra essa profissão “na raça”.

Houve um aumento considerável de festivais no país. Qual a razão desse crescimento?

Acho que é uma combinação de diversos fatores. Os fãs começaram a compreender melhor o conceito de experiência em um festival e estão bem menos preocupados com o lineup. As grandes marcas entendem que festivais são oportunidades excelentes para gerar lembrança de marca e experiências diferenciadas. Os artistas e agentes enxergam o Brasil com potencial para absorver eventos dessa natureza…

Atualmente, o que representa o Brasil na rota dos grandes shows internacionais? Nitidamente nota-se tamanho progresso nas realizações desses shows. Qual a razão dessa conquista?

O Brasil é um país que absorve facilmente a diversidade cultural, e a música está no centro dessa esponja. Os fãs brasileiros são apaixonados, os fornecedores passaram a ter mais qualidade de equipamentos… Acho que o showbusiness cresceu no país de forma considerável com a volta do Rock in Rio, logo que virou o milênio. O crescimento econômico do país e o dólar bom na época também permitiu, na minha visão, que os promotores conseguissem aumentar o volume de shows. Entramos num período “estranho” de 2012 até a Copa do Mundo, mas aos poucos, com a entrada maior de marcas patrocinando mais shows e festivais, conseguimos dar essa “volta por cima”. Hoje, a projeção é que, mesmo com a crise, o mercado de entretenimento no país cresça a uma taxa linda, acima de 6% ao ano. O Brasil deve pular uma posição e ficar em oitavo lugar no ranking de faturamento com entretenimento ao vivo. É um mercado ótimo para artistas, marcas e tiqueteiras. E os fãs cada vez mais prezam pela experiência ao vivo. Então, só vejo projeções boas.

E para finalizar, quais as dicas para os futuros profissionais da área de entretenimento?

Insistam na área que desejam atuar, mas não esperem confiança do contratante do dia pra noite. Precisamos nos provar competentes de forma constante e diariamente. E o principal, que acho que muitos novos profissionais se esquecem: shows são legais de produzir, mas se você quer fazer grana e ser reconhecido pelo mercado, precisa pegar todos os tipos de job, por isso, não fiquem esperando só fazer show grande. O profissional de verdade faz show, evento, casamento, aniversário, velório, feira, corporativo, grande, pequeno, de todos os estilos musicais. Quem só faz direitinho quando tem show grande, com certeza, não é para esse mercado e, com mais do que certeza, não consegue sobreviver financeiramente.

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