ESPECIAL DAVID BOWIE – A ÚLTIMA AULA DO CAMALEÃO

Por Fabiana J. Lian

Tem uma história divertida que sempre colore minhas palestras ou uma aula de Tour Management que hoje ganha tons de blues.

Meu segundo trabalho no mundo do showbusiness foi um tratamento de choque, em que aprendi da melhor maneira a postura de um produtor de turnês; qual o momento em que você deixa o fã em casa para se tornar um profissional. Fui ao aeroporto naquele fim de 1997 com as pernas bambas e a boca seca, pensando, “vou ver DEUS daqui a 5 minutos”, e meu grande desafio foi manter a pose profissional. Esta prova de gincana emocional ajudou a me trazer efetivamente ao cenário onde minha carreira aconteceu.

O artista era David Bowie, com quem passei uma semana durante a turnê do álbum “Earthling”. Estar ali naquele momento significou bem mais do que uma prova de caloura. Assisti a todos os shows (São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba) do palco, que era super high tech, a produção era complicada pra época. E vossa majestade, constatei, era mais baixo do que eu pensava, tão chique e carismático quanto sabia e um artista cinquentão que era gigante, ao carregar sua platéia pra onde quisesse, além de reger uma banda excepcional. Além disso, ele estava com a mulher, e via amigos, tinha vida cultural nas cidades pelas quais passou.

Essa semana, no carro, voltando de férias, logo depois da notícia, minha filha me pergunta:
– Por que você gosta tanto de David Bowie?
– Porque ele transforma angústia em música pra dançar…

Foi o que saiu ali no meio do choro, pois sua partida bateu primeiro no corpo que dançava suas músicas na adolescência, quando ainda não tinha noção do que ele representava e representaria para mim, e para o mundo pop.

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Chegando em casa, fui me atualizar, ouvir o álbum que saiu dia 8 e entender a última semana. E resolvi não escrever sobre o que ele significou para a cultura, ou como ele foi o responsável por todos os movimentos da música desde que apareceu, ou enumerar as bandas que acompanhei de perto e que chegaram aqui na era pós-Bowie. Hoje tem gente de peso atestando toda a trajetória dele.

Resolvi falar sobre a grande lição que ele nos traz.

Comentários e especulações sobre a saúde já rolavam aqui e ali no mundo da música. Mas a doença esteve fora do radar do público. Nada de fãs se lamentando, se despedindo ou se solidarizando. Isto ficou restrito a poucos amigos e parceiros. Repararam que nem o tipo de câncer foi divulgado?

Para nós restou somente a clara espreita da morte nos vídeos “Blackstar” e “Lazarus”. Digno, discreto e dono do seu roteiro… Até o último videoclipe.

Ainda que o corpo detivesse o cronograma da morte, Bowie escondeu o homem na cama, nas sessões de quimioterapia, nos poupou de martírio e piedade e nos deixa a genial arte de meio século.

David Bowie nos escreveu uma carta de amor e ironia neste álbum. Lamenta o estado das coisas do mundo que está deixando. Critica extremismos, desumanidades, religiões. E se despede em um aceno com o livro, com sua Blackstar na capa.

Li de uma fã adolescente de hoje e tão arrasada quanto eu, adolescente do século passado: “Pessoas como você não morrem de câncer!” Não, Taty, ele não morreu de câncer. Ele tomou e nos deixou um gole do antídoto da mediocridade. Obrigada, Your Majesty, por nos hospedar neste lugar onde o STAR transcende a celebridade e  a arte transcende a vida.

Something happened on the day he died
Spirit rose a metre and stepped aside
Somebody else took his place, and bravely cried
(I’m a blackstar, I’m a blackstar)

How many times does an angel fall?
How many people lie instead of talking tall?
He trod on sacred ground, he cried loud into the crowd
(I’m a blackstar, I’m a blackstar, I’m not a gangster)

I can’t answer why (I’m a blackstar)
Just go with me (I’m not a filmstar)
I’m-a take you home (I’m a blackstar)
Take your passport and shoes (I’m not a popstar)
And your sedatives, boo (I’m a blackstar)
You’re a flash in the pan (I’m not a marvel star)
I’m the great I am (I’m a blackstar)