GraMMy 2016: A cadeia de Lamar e a cadeia de Music & Money

Colaboração Especial: Roberto Verta

Ahhhhh…. os Grammies…..

Aquele momento em que a música se reafirma como força artística popular e ao mesmo tempo, se auto promove como negócio de milhões de dólares, libras, euros, etc..

Então, como nos Oscars, é um evento que visa muito mais premiar e dar visibilidade mundial a quem funcionou no mercado americano, mas  ao mesmo tempo reflete o momento dessa indústria, mostrando às vezes seu lado volátil e dramático. Volátil pela quantidade de música nova despontando ali na esquina, e dramático se considerarmos o número brutal de ícones da música mortos nos últimos meses. Sendo assim, antes de entrarmos no mérito do Grammy enquanto espetáculo televisivo, fico aqui pensando se alguns desses novos artistas serão os próximos Bowie, Lemmy, Maurice White, Glenn Frey, Allen Toussaint e Scott Weiland e outros que fizeram parte de uma das mais longas listas de perdas dos últimos anos.

De qualquer forma, a vida segue em um momento de dominação do pop e do, notadamente crescente, hip hop como principais forças de mercado. Então nada mais apropriado do que ter LL Cool J como mestre de cerimônias e também  a homenagem mais que merecida para o Run DMC, como “Life Achievement”, que foram precursores de um nicho de mercado que há muito não pode mais ser considerado nicho e vive um momento de dominação quase que global. Então, bobagens de Kanye West à parte, a noite foi de Kendrick Lamar. Além de 11 indicações e levar 4 estatuetas, Kendrick apresentou ao vivo sua explosiva “Alright” com direito a palco ambientado como uma prisão e se apresentando com suas mãos acorrentadas,  lembrando a todos da verdadeira vocação do hip hop: a desobediência e o protesto ! Além de tudo, Kendrick flerta com o jazz como fazia Gil Scott-Heron, um dos pais do gênero nos anos 70. Nada como voltarmos ao início para se fazer algo novo !

Taylor Swift foi a única rival à altura com seu jeito de princesa, mas voz e apresentação de diva. Não sou grande apreciador dessa nova fase pop dela, mas temos que reconhecer que essa indústria sempre foi movida por artistas que fazem suas canções em seus quartos de adolescente para o mundo, como ela fez.  Além de levar o prêmio de melhor álbum do ano,  teve a moral para dar espetada mega em Kanye West,  mandando um recado para as mulheres ignorarem aqueles que querem clamar para si crédito por seus feitos. Veio pra ficar.

grammytaylor

Rihanna cancelou sua apresentação à tarde quando sentiu que não tinha garganta para a empreitada em função de uma bronquite. Lauryn Hill não se deu o trabalho de aparecer ou explicar porque não veio.

Bons shows de The Weekend, Miguel, Alabama Shakes, Ellie Goulding Tori Kelly & James Bay,  e shows desnecessários de Sam Hunt & Carrie Underwood, Little Big Town, só reforçando o momento de caretice e conservadorismo que a música pop se meteu.  Lionel Richie teve seu repertório mais pop e menos relevante cantado por Demi Lovato e Luke Bryant e salvando a homenagem o sempre competente John Legend (“Easy”), Tyrese Gibson (com o clássico dos Commodores, “Brick House”).

Adele foi prejudicada pelos ultrajantes “problemas técnicos” é verdade, mas não teve calma para segurar a onda e desafinou e semitonou à vontade. Considerando o peso de ser a última bolacha do pacote da combalida indústria da música atualmente, ganhou aplausos de pé de qualquer forma.

Mais digno foi Justin Bieber, com voz e violão em “Loose yourself”, e com Skrillex e Diplo (Jack Ü) em  “Where are you now”.

grammybieber

Uma outra surpesa agradável e necessária da Academia foi apresentar Joey Alexander, pianista de jazz de apenas 12 anos, se posicionar contra as ridículas taxas de royalties que os desenvolvedores de novas tecnologias querem pagar aos artistas pela utilização de suas obras em mídias digitais. Parabéns à academia por se posicionar de forma clara que, talentos como Joey Alexander não poderão se desenvolver e ter uma vida digna com o que os artistas recebem pela utilização digital de suas obras atualmente.

As não surpresas foram os prêmios para gente que realmente moveu a indústria da música ano passado como Eddie Sheeran, Alabama Shakes, Meghan Trainor,  Mark Ronson & Bruno Mars que levaram o merecido prêmio de “Gravação do ano” por “Uptown Funk”.

Já que o promotor de shows lá do andar de cima JC ganhou alguns novos e importantes nomes no seu cast, as homenagens foram várias: Pentatonix & Stevie Wonder lembrando o grande Maurice White do Earth, Wind & Fire foi um belo momento.

Bowie foi “homenageado” por Lady Gaga que foi bem pelo menos em canções “Fashion”, “Let’s dance” e “Fame”. Sua roupa mais parecia Las Vegas Elvis do que David Bowie. Divertido, mas talvez se esperasse muito de Gaga para fazer jus ao legado de seu mentor. Bowie significava a quintessência do rockstar provocador e sexy. Gaga é provocadora e sexy, mas não é uma rockstar, e sim uma estrela pop do novo milênio com tudo o que isso pode querer dizer (de bom e ruim). Sua apresentação contou pontos na sua luta para provar ser uma artista longeva, mas talvez Bowie, que quando fazia música pop, o fazia com tremendo bom gosto, não entendesse o aspecto Vegas da homenagem. Talvez o disco de Gaga com Tony Bennett seja mais sincero e genuíno.

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Outra estranheza, foi a homenagem a Glenn Frey, no mínimo peculiar, já que foram notórias as rusgas constantes do falecido com o resto da banda, então senti um cheiro de que Don Henley, Joe Walsh e Thimothy B. Smith estavam lá só marcando o ponto. Triste se for o caso.

Os Hollywood Vampires foram de “As bad as I am” e “Ace of spades” com Duff McKagan (Guns), Matt Sorum (Guns), Johnny Depp, Alice Cooper, Joe Perry (Aerosmith) homenageando os Mötorheads que se foram, Lemmy & Philhy Animal Taylor.

Será que o rock morreu com Lemmy ? A resposta virá nos próximos Grammies. Stay tuned !

 

Roberto Verta é um dos profissionais mais experientes em music business do país, e é professor do extensivo MUSIC BUSINESS, da ON STAGE LAB.