IRON MAIDEN: PROFISSIONAL X FÃ

Neste final de semana aconteceu o último show de uma série de cinco da turnê “The Book of Souls”, do Iron Maiden, em São Paulo. A banda viajou pelo país fazendo apresentações em cinco cidades diferentes, e eu, eterna fã que sou, tinha uma missão que começou há vinte anos: trabalhar, nem que fosse uma única vez, em um show dessa banda.

Como eu acabei de explicar, eu sou fã da chamada “Donzela de Ferro” a pouco mais de duas décadas. A banda inglesa foi minha primeira grande inspiração para entrar no mercado do showbusiness: em 1996, ao assistir um VHS chamado “Live at Donnington”, enquanto meus amigos pensavam sobre a banda, o cenário luxuoso, os figurinos marcantes de Bruce Dickinson e o setlist de um de seus últimos shows como vocalista do Iron Maiden – ele estava de saída naquela época – eu pensava: “eu queria ser uma mosca para saber o que acontece atrás desse palco enorme”.

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Créditos: Stephan Solon

Eu sempre quis trabalhar com o Iron Maiden, mas também sempre fui fã. Sou conhecida por ganhar um concurso atrás do outro, quando adolescente e mais tarde, já firmando carreira na área, todos relacionados à banda: almoços, jantares, jogo de futebol, entrega de disco de ouro, acesso ao palco… Até um depoimento para o documentário “Flight 666” eu dei. Por essa razão, eu já tinha plena consciência da dificuldade em alguém me dar uma oportunidade de estar mais próxima a eles. Qualquer promotor tremeria nas bases em oferecer uma credencial de acesso ao backstage de um grande artista para uma pessoa que é considerada fanática.

Porém, a experiência de mais de uma década realizando meu trabalho com imparcialidade, profissionalismo e capricho, me renderam finalmente a grande oportunidade pela qual tanto aguardei.

Então, se você se pergunta se é possível ser fã e trabalhar para o seu artista favorito, eu respondo que sim, mas existem uma série de fatores a serem considerados. Eu listo eles abaixo, mas é importante entender que tudo isso serve mesmo para você que não é fã de um artista.

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Tudo se resume à postura de trabalho. Eu já fiz trabalhos para outros artistas que sou fã: Lady Gaga, Rolling Stones, Symphony X e tantos outros… Mas a postura é o primeiro passo para o autocontrole de não pular no pescoço do seu ídolo. Primeiro: trabalho não é meet & greet, é trabalho. Ou você cria um foco nas tarefas que você precisa desenvolver, ou você paga um mico tremendo. Nunca, jamais, sob hipótese alguma, sinta-se no direito de abordar seu ídolo durante um trabalho. Ele está contando com você para a entrega de um espetáculo, de um produto final, e existem milhares de pessoas aguardando por ele. Não é só você, fã / trabalhador, que quer estar ao lado do seu ídolo, logo sua prioridade é fazer o seu trabalho com o máximo de eficiência e capricho.

Esse tipo de abordagem pode sim significar o fim da linha na sua carreira. Isso porque um trabalho sério atrás do palco de um grande show significa um grande voto de confiança de que você não vai enlouquecer, pedir autógrafos, fazer selfies, “surrupiar lembrancinhas” pra sua coleção.

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Créditos: Stephan Solon

Eu, que sou fã há muitas décadas do Iron Maiden, presenciei a montagem dos camarins, vi o figurino do Eddie, descobri o que a banda come, como se prepara, descansa, quem a visita, enfim, toda a sua rotina. Desafio qualquer um de vocês a encontrar uma foto ou um registro disso tudo em minhas redes sociais. Não existe. Porque eu, como profissional, sei que não posso informar o hotel do artista, postar informações sigilosas sobre horários, invadir a privacidade e a concentração dos meus ídolos. Eu os tratei como tratei qualquer outro artista com quem já trabalhei e de quem não sou fã.

O nome disso é profissionalismo: celular fica no bolso, amigos e redes sociais podem esperar e o que eu vi, presenciei, eu guardo pra mim, não é preciso provar pra ninguém que eu realmente estive lá. Estou ganhando pra isso. E mesmo que não estivesse, a minha POSTURA pode me trazer novas oportunidades de trabalho e quem sabe, uma nova chance de trabalhar com meus ídolos.

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Créditos: Stephan Solon

E na hora do show, eu liguei meu modo headbanger, saí da área de backstages completamente pelo menos meia hora antes da Donzela subir ao palco, para não incomodar nenhum deles com a minha camiseta de banda, com a minha maquiagem, com a minha excitação em vê-los ao vivo. Eu virei fã do palco pra frente. Do palco pra trás, mais tarde, a profissional volta – e permanece no seu posto de trabalho, sem procurar “oportunidades” para “esbarrar” com Bruce Dickinson e os demais integrantes.

Se você quer trabalhar com seus ídolos, fica então o meu conselho: postura, discrição e profissionalismo são os itens que você deve ter na sua cartucheira. Celular e fanatismo ficam de fora disso, e um ingrediente entra em cena: já que eu sou fã, por que não fazer o meu trabalho com mais capricho e mais carinho ainda? Focalize sua energia de fã e transforme-a em dedicação extra para a realização de um trabalho primoroso! Por fim, acredite no seu sonho e não tenha preguiça de persegui-lo. Podem levar vinte anos, mas ele se realiza!

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Créditos: Stephan Solon