Jimmy Iovine fala sobre o futuro da Apple Music

*Traduzido do artigo original da Billboard Magazine

Jimmy Iovine tem algo que precisa tirar de seu peito. O executivo da Apple de 63 anos, passou décadas na indústria musical como produtor, engenheiro, executivo de gravadora e co-fundador da Interscope Records, depois de fundar a Beats Electronics e a Beats Music junto com Dr. Dre e, em 2014, se mudar para a Apple depois da companhia ter comprado a Beats em um acordo de 3 bilhões de dólares. Agora, 17 meses depois do lançamento da Apple Music — que gerou muitas manchetes graças as suas estratégias exclusivas e a busca agressiva por conteúdo original para seus 17 milhões de assinantes pagos — Iovine ainda acha que sua missão não foi entendida.

O que todos estão escrevendo por aí é o óbvio agora,” ele disse a Billboard. “Eles estão escrevendo ‘as pessoas no mercado fonográfico estão se voltando para a tecnologia para poder falar com as pessoas do mercado.’ Isso não faz sentido.”

O tópico tem um interesse particular de Iovine, já que junto com Dr. Dre ele doou 70 milhões de dólares para a University of Southern California em Los Angeles em 2013, com o objetivo de criar um novo instituto dedicado a educar estudantes nas artes, tecnologias e mercados da inovação, que ele diz significarem tudo para ele. E também está no contexto da recente migração de antigos players do Music Business, como Troy Carter, que já foi empresário de Lady Gaga e Meghan Trainor, e Lyor Cohen, o veterano de longa data da Def Jam e da Warner Music Group, que recentemente foram para o Spotify e YouTube, respectivamente. Mas enquanto a mudança se tornou uma tendência nos meses recentes, já que o streaming está tomando conta de todas as áreas como a receita corrente dominante na era digital da música, Iovine acha essa narrativa é a simplificação de um problema maior.

“Demorou 10 anos para desenvolver esse time,” ele diz sobre sua equipe na Apple, incluindo Trent reznor, Luke Wood e Larry Jackson. “As pessoas da cultura popular precisavam entender como falar com engenheiros. Não é só eles falando com pessoas da gravadora, senão a cultura de engenheiros não entende sobre o que você está falando, não te leva a sério e te deixa de fora.”

Com o recente redesenho da Apple Music e sua busca contínua por exclusivas, tanto em streams de áudio e agora com vídeos, Jimmy Iovine quebra as concepções erradas de sua estratégia na Apple, a dificuldade de casar o mundo da música com o mundo da tecnologia e a evolução da empresa que ele está construindo agora. “Nós somos um complemento para artistas e gravadoras,” ele disse. “Sim, é uma empresa que já faz parte da cultura popular, mas também é uma ferramenta. E é isso que estamos construindo. Nós não estamos no mercado de gravadoras.”

Confira abaixo a entrevista:

Billboard: A Apple Music realizou muitas coisas no último ano…

Jimmy Iovine: Antes de entrarmos nesse assunto, temos que entrar no porquê. É uma história, é complexo. Porque todo mundo está escrevendo por aí é o óbvio agora. Eles estão escrevendo ‘as pessoas no mercado fonográfico estão se voltando para a tecnologia para poder falar com as pessoas do mercado.’ Isso não faz sentido. E isso não faz sentido porque é necessário um certo tipo de indivíduo… Por exemplo, eu encontrei os executivos da Apple, Steve Jobs e Eddy Cue em 2003.Eu percebi que o futuro da música estaria entrelaçado com a distribuição através de empresas de tecnologia. Parecia para mim que era isso mesmo, e eu percebi o quão atrasado eu estava. Então eu sai por aí para realmente entender. Eu trabalhei com esses caras por dois anos, e disse para o Steve, “Eu queria fazer fones de ouvido da Apple com o Dr. Dre,” uns dois ou três anos depois. Ele disse, “Faça você mesmo, você consegue.” Então eu tentei.

Eu construí uma empresa de tecnologia. E nós construímos essa companhia e nós precisávamos de certos tipos de indivíduos para o tipo de empresa que queríamos construir. Nós queríamos construir uma empresa de tecnologia que tivesse uma grande presença na cultura popular, que era o que a Apple tinha, sem querer ser o Steve Jobs. Mas queríamos ter essa compreensão. Então uma das primeiras coisas que fiz foi contratar o Luke Wood, porque ele entendia ambas as linguagens. Porque linguaguem é algo complicado.

Então eu precisava de alguém com o ponto de vista de um artista que entendesse a linguagem da tecnologia, e esse era o Trent Reznor. Essa nova interface de usuário que você vê na Apple Music, o Trent esteve muito, muito envolvido com ela em todos os seus níveis. Tanto no design e na engenharia, toda semana, para deixar tudo tecnicamente e culturalmente certo, para fazer o que queríamos com cultura. Então eu saí da Interscope, e o Larry Jackson era um cara que também podia falar as duas linguagens, então levei ele comigo. Isso foi um processo de 10 anos. Então nós vendemos a empresa para a Apple. E aí a Apple trouxe mais de 250 pessoas da cultura pop, de negócios de mídia – não uma, 250 pessoas. Certo? Então é por isso que tudo isso está perdendo o intuito principal: demorou 10 anos para desenvolver esse time. E nós somos tão comprometidos que eu e o Dre começamos essa faculdade na USC.

Então as pessoas que contratam executivos de gravadoras – Eu não sei o que essas pessoas podem ou não fazer – mas Larry e Trent eram caras que eu simplesmente conhecia, instintivamente e trabalhando com eles, e que eu sabia que podiam aprender isso. Isso é muito importante. Porque toda vez que eu leio “Oh eles estão contratando pessoas da indústria da música!” Que ingênuo! Você sabe o que está errado? Existem jornalistas demais, artigos demais e não há tempo suficiente para fazer a pesquisa e a profundidade necessária para conseguir a história toda correta. O que eu li no Yahoo essa manhã era tão absurdo. (risos)

B: Então o que há com caras como Larry, que te te fez acreditar que era o tipo de pessoa que poderia trilhar esse caminho?

JI: Muitas pessoas jovens tem esse sentimento porque eles cresceram se comunicando através de tecnologia e tem seu entretenimento através de tecnologia e lidando com ela. Então eles são bem intuitivos. Alguns deles vão além para realmente tentar entender – eles não são programadores, mas eles entendem a linguagem e querem aprender sobre ela. Larry tinha essas qualidades e tinha a capacidade e inclinação para isso. Então eu acho que eu estava certo. E ele está indo muito bem na Apple, trabalhando com pessoas do mundo da tecnologia. E isso é muito, muito, muito difícil, e é por isso que eu criei a minha escola. Isso não é algo que simplesmente aconteceu da noite para o dia, isso vem acontecendo desde 2004.

B: Esse ano, os 10 anos de preparação e planejamento se manifestaram em diversos projetos, e sobre eles que eu queria te perguntar…

JI: Sim, e tem muita coisa que acontece nos bastidores para fazer esse balanço funcionar. Robert Kondrk e eu trabalhamos constantemente em misturar as culturas, e ele precisa ser mencionado porque ele está trabalhando muito, muito duro em misturar essas culturas comigo, de mesclar a Apple com as pessoas da Beats. E Eddy Cue é incrivelmente natural, ele tem um dom porque ele era o cara do Steve, então ele aprendeu um monte sobre isso e é muito aberto e tem uma grande intuição para cultura popular e mídia. Então consiga eesse time e você tem uma chance.

E o que nós iremos fazer, o que nós estamos fazendo agora que ainda não foi revelado, é que estamos construíndo o híbrido correto.E nós acreditamos que é o híbrido correto, e a combinação dessas coisas, que nos farão construir um seriço musical que é adepto da cultura e da tecnologia.

B: E você pode compartilhar alguma coisa sobre como ele vai parecer?

JI: Eu não posso. Mas posso falar que nós estamos, você sabe… Larry, Trent, Luke na parte dos fones de ouvido, Zane Lowe [com a Beats 1], nós estamos todos trabalhando para criar algo – e Robert Kondrk – que nós possamos misturar corretamente e não apenas dizer “Vamos pegar alguém de uma gravadora para fazer o acordo que queremos.’ Isso não tem nada a ver com isso. E você sabe, foi uma jornada. Nos últimos três anos ambos os lados tiveram que trabalhar para realmente entender o outro. E eu tenho que ter pessoas com a capacidade de aprender.

B: Vocês assumiram alguns riscos desde o lançamento da Apple Music, e eu diria que isso aconteceu recentemente com o curta do rapper Drake, Please Forgive Me. Vocês vão investir mais em vídeos e curtas?

JI: Nós vamos fazer qualquer coisa que acharmos que é incrível. Nós faremos uma combinação de tecnologia com cultura pop que é emocionante e pertencente às duas áreas. É o que estamos começando a ver. E terá uma voz. E não será somente uma utilidade – “Vá aqui e pegue sua música, boa sorte,” ou “Nós vamos te mandar uma lista” – isso é legal, mas não é o que estamos fazendo.