O paraíso imoral de Lucas Lucco e Pabllo Vittar

No universo dos artistas, dos fonogramas, da criatividade artística, as colaborações vem ganhando cada vez mais espaço. Essa é uma das ferramentas / estratégias mais úteis para divulgação, impulsionamento e potencialização comercial dos artistas envolvidos em uma colaboração musical. No Brasil, essa é uma estratégia amplamente utilizada dentro da música sertaneja e que agora permeia outros estilos musicais como o funk e o pop nacional.

A música brasileira, aliás, atravessa um período de colheita de uma nova safra artística. Primeiro veio o tropicalismo, impulsionado fortemente pelos festivais de música e a própria ditadura militar. Depois, a onda do rock nacional, com Brasília como grande berço de artistas de peso político no meio dos anos 80 / início dos anos 90 e uma explosão sequencial da música sertaneja. Sou capaz de dizer inclusive que essa é a terceira grande onda da música brasileira de que se tem notícia, agora, nesse momento. Está acontecendo bem debaixo do nosso nariz.

É fato que as pessoas de mente menos aberta estão revoltadas com o surgimento das “Anittas” da vida, mas manas, aceitem – a música brasileira é amplamente diversa e a cada ciclo, um estilo diferente emerge: sertanejo universitário, forró, tecnobrega, funk ostentação e por aí vai. Mas não foi pra isso que eu trouxe você, leitor, até aqui. Eu tentei colocar tudo sob um contexto para vocês entenderem o meu assunto principal: a polêmica colaboração entre Lucas Lucco e Pabllo Vittar.

Reprodução: Instagram

Reprodução: Instagram

Faz alguns domingos que o programa “Fantástico” lançou, em meio a polêmicas, o videoclipe da música “Paraíso”. Foi um espaço grande que o duo ganhou: mais de 15 minutos em rede nacional, no programa de maior audiência da emissora; é de se respeitar. Difícil inclusive um espaço tão grande pra música. O programa mostrou os bastidores das gravações do acústico que os dois montaram para dar um prólogo a “Paraíso” e Lucas foi enfático: “Quero ser uma espécie de cola, sem gênero, sem rótulo”, e Pabllo complementa: “A gente faz música, é isso”. Ambos previram o que viria a seguir.

Não foi com muita empolgação que o grande público, que a massa recebeu essa dupla. O Twitter virou um mar homofóbico, cheio de comentários pejorativos, questionando a sexualidade do astro sertanejo, questionando os critérios do programa em mostrar e fazer apologia à homossexualidade e ao transgênero, como se isso fosse algo negativo. Vamos separar as coisas: um assunto é a discussão da qualidade vocal de Pabllo Vittar – muita gente demonstra certa preocupação com a durabilidade da voz de um homem que emula uma voz feminina. Muita gente não gosta, como não gostam do próprio Lucas Lucco e não o consideram um artista do meio sertanejo. E gosto é gosto, deve ser respeitado.

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Mas outra coisa é tornar essa veiculação numa questão de preconceito e ódio na internet. Que ano é hoje? Que movimento contrário é esse acontecendo no Brasil e no mundo, em que após finalmente nos abrirmos para a diminuição dos nossos preconceitos em geral (inclusos racismo, xenofobia, gordofobia, homofobia), voltamos à estaca zero e nos preocupamos em cornetar tudo baseado no modelo da “família tradicional brasileira”? Por favor né, a família brasileira historicamente é tudo, menos “tradicional”.

Várias das reações vieram de grupos religiosos e políticos que admitem apenas o feminino e o masculino. E houve a crítica da inadmissibilidade de um transgênero representar Eva e um cara tatuado representar Adão. Absolutamente imoral, diriam várias dessas críticas. Seria mesmo? A alegoria bíblica de Adão e Eva tem lá suas falhas, que estou sempre disposta a discutir. Tais falhas foram utilizadas no microblog como mecanismo de defesa dos fãs que compreenderam o vídeo de Lucas e Pabllo e sim, foi justo. Grupos religiosos e políticos que se metem a discutir certas moralidades e transferi-las para o campo das artes caminham em terreno muito perigoso.

Você, que trabalha com música, estuda música ou vive de música, fica esperto: essa corrente preconceituosa te afoga, seja por bem, seja por mal. A reação extrema e negativa das pessoas aos novos artistas transgênero é temporária. O movimento LGBTQ – e quantas letras mais forem inclusas nessa sigla – não é mais um movimento de uma minoria “coitadinha”. A classe média baixa branca ainda não é capaz de compreender que esse movimento é formado por pessoas com excelente formação educacional, politizadas, com noção exata de sua posição na vida em sociedade e dos seus próprios padrões de consumo, seja na moda, na música, até na alimentação. É um movimento capaz de grandes gestos, grandes boicotes e grandes protestos. É um movimento que provou atingir grandes vitórias e objetivos; que adotou no passado Madonna, Cindy Lauper, Lady Gaga e hoje possui uma representação artística mais viva ainda: RuPaul pode ter criado o embrião disso tudo, mas é Pabllo Vittar, Gloria Groove, Aretuza, As Bahias e Cozinha Mineira que estão carregando com louvor o estandarte dessa declaração do Lucas Lucco: música não tem gênero, meus amores. Acabou a era dos rótulos, pelo menos no Brasil: “você é headbanger e só pode ouvir metal”, “você é pagodeiro”, “você é do rodeio”. Sandy participou do último disco do Angra, vamos crescer e amadurecer?

Antes de fechar esse texto, eu fui atrás do Lucas Lucco pra entender como ele está lidando com essas reações extremistas, em especial do universo sertanejo, que sabemos, só agora abre um espaço considerável pras mulheres por exemplo. Sim, o sertanejo ainda é um sistema solar dominado por homens, que aos poucos liberou a entrada de mulheres, mas que ainda não admitem um transgênero transitando numa colaboração musical. E pra minha surpresa, Lucas Lucco está indiferente aos comentários jocosos, às dúvidas sobre sua sexualidade.

Na verdade, bastidores sejam louvados, poderia ter rolado um beijo entre ele e a Pabllo, como acabou acontecendo com o Diplo em “Então vai”, mas não rolou. Só que o Lucas não estava disposto a impedir esse fluxo se ele assim acontecesse. Veja bem: se um ator heterossexual pode interpretar um gay e vice-versa (em “13 Reasons Why”, por exemplo, a personagem Justin é heterossexual e é interpretado pelo atual namorado do cantor Sam Smith), qual o impedimento de um cantor atuar com uma química bacana e convincente pra “vender” a mensagem da música? “Hoje você vai embora só se eu deixar // Hoje embaixo do lençol o bicho vai pegar”. O que ele faria com uma mulher, ele fez com a Pabllo. E a Pabllo é mais mulher do que muita menina por aí.

Reprodução: Youtube

Reprodução: Youtube

Em conclusão, é importante que a cadeia produtiva da música continue a romper essas barreiras “morais”, porque a música não tem barreiras. As expressões artísticas hoje viraram corridas do que é politicamente correto e moralmente aceitável. Isso não passa a mensagem de cada letra, de cada melodia ou de cada artista com verdade. Não empodera, não melhora nada. Abrir os olhos, o coração e a mente do público é tarefa obrigatória do mercado. A música latina nos últimos anos vem saindo das sombras pra ganhar o mundo com J Balvin, Wisin, Maluma, Juanes, Anitta e sim, Pabllo Vittar. Concentremos então nossos feedbacks em outras coisas: na qualidade de fotografia do videoclipe, na atuação profissional dos cantores, nos figurinos e na representação do arquétipo proposto. É de muito mais valia do que questionarmos a sexualidade de um cantor ou brigarmos pela validade moral de uma cantora transgênero.