ON STAGE LAB ENTREVISTA: EDDIE SANTOS

Pauta: Fabiana J. Lian
Texto: Juliana Mello

A vida na estrada é gostosa… Mas tem seus momentos de aperto, vários outros momentos de muita concentração e seriedade… E outros que nem todas as garrafas de café do mundo são capazes de te ajudar a manter os olhos abertos. Eddie Santos já esteve em todas as pontas dessa corda: do dia a dia de montagem e produção pesada às noites sem dormir planejando os próximos rumos dos artistas que cuida. Atualmente, à frente da produção artística de Marcelo D2 e Planet Hemp, Eddie parou um pouquinho para bater esse papo super descontraído com a gente, e sem frescuras – ele nos conta as dores, os prazeres, as dificuldades e os bons momentos que ele vive nessa rotina de viver “sem rotina”, dia após dia, na estrada com seus artistas. Ele abriu o jogo geral e o resultado você confere nas próximas linhas!

On Stage Lab: Há quanto tempo você está no mercado do entretenimento?
Eddie Santos: Comecei em 1996 em uma produtora de eventos chamada Rockstrote, de Santo André (ABC Paulista). Nela eu era o “peão” – um faz tudo… Mas foi ótimo, pois me ajudou muito a me construir, já que nessa empresa eu participava de tudo, desde a montagem de uma barricada até o abastecimento de camarins. Minha segunda casa foi a NaMoral Produções e foi lá que me moldei definitivamente. Até hoje faço parte do staff deles.

OSL: Por quê você decidiu trabalhar com essa área? Ou “decidiram” por você?
ES: A parte curiosa é que na época eu achava o trabalho meio que fácil, via os produtores no telefone o dia todo, só falando e falando… Mas acabei do outro lado, com a mão na massa, montando barricada (risos). Conheci um produtor chamado Sergio Pezzo, foi ele quem me ajudou e muito… Ele era muito ocupado; lembro que na época ele estava trabalhando na primeira turnê do Deeep Purple – “Purppendicular”. Ele trabalhava sem parar, eram muitas datas pelo Brasil e ainda tinha outros shows nacionais para executar. Ele acreditou em mim, me jogou nas produções nacionais – eu queria tanto um telefone, “então toma” (risos), me supervisionava, claro, e depois de um tempo eu já estava assinando minha próprias produções.

OSL: Além de road manager e produtor de estrada, que outros papéis você já desempenhou ou desempenha?
ES: Na minha época de peão, até a van eu dirigia. Depois passei pela Mercuri (Raimundos / Charlie Brown) rapidamente. Fiquei cerca de nove anos com a Pitty e no trabalho com ela, respondi pela produção técnica, artística e geral – acho que inclusive foi nessa ordem. Ahn, teve também o trabalho com a Nação Zumbi, com quem fiquei por um ano tratando da produção geral. Hoje cuido das produções executivas e geral de Marcelo D2 e Planet Hemp.

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OSL: Você sente muita diferença no mercado de quando você começou a trabalhar para hoje? O que está melhor e o que está pior?
ES: Sinto e muito – nos meios de comunicação, rodovias, malha aérea… Tudo isso evoluiu e nos ajuda muito no dia a dia. Não sei dizer muito o que piorou, mas talvez, eu diria a parte que me dá saudade: tudo no começo é mais romântico, mais quente… Talvez eu sinta saudade (muito pouco – risos).

OSL: O que você aprendeu a duras penas?
ES: Nunca diga o horário correto para os motoristas, seja van, carro executivo, ônibus ou caminhão. Não faz mal nenhum deixá-los aguardando, do contrário, quem provavelmente aguardará será você.

OSL: Você trabalha com artistas de diferentes perfis. Como é trabalhar com uma artista e um artista?
ES: Homem diz o que quer e precisa, mulher geralmente dá uma dica e você tem que traduzir, tipo um casamento (risos).

OSL: As prioridades mudam também quando é um artista ou uma banda (D2, Pitty x Planet Hemp). Como você “gira este botão” ?
ES: A minha vida já é um schedule naturalmente. Tudo o que penso e organizo está anotado. Crio meios de me organizar e em cada formato, tenho este cronograma formado com necessidades, prioridades e rotina. Mudo a chave de um para outro usando todas as ferramentas que criei e também conto com as orientações do escritório, que me ajudam a administrar as prioridades, necessidades e o que é da rotina.

OSL: Quando você não está na estrada, sua vida  é mais tranquila? Conte um pouco da sua rotina pra gente.
ES: Não. Tenho de me certificar de que tudo o que combinei, acertei e contratei está como foi idealizado na pré-produção. O meu trabalho tem início quando o artista e equipe saem de suas casas, e só finaliza no momento que voltam. Sou muito controlador e cuido de tudo muito de perto: aéreo, hospedagem, transporte local, rodoviário em alguns casos, backstage, camarins, atendimentos, etc.

OSL: Como você prepara sua equipe e banda pra caírem na estrada?
ES: No caso dos projetos Marcelo D2 e Planet Hemp, o que mais importa a eles é a lista com as informações aéreas, este item tem que ir rapidinho. Criamos também um cronograma geral com tempos e movimentos e informações locais para que todos se organizem como irão e quanto tempo ficarão em cada lugar.

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OSL: Qual é a maior dor de cabeça que um produtor pode ter? Dá pra evitar?
ES: O artista ou banda perder o último vôo para a cidade de destino. Nunca os coloque no último vôo. O máximo que faço e usar o antepenúltimo.

OSL: Falando em contratantes no Brasil, de quais tipos a gente precisa fugir?
ES: Aqueles que te falam “está tudo certo”… Certeza que ele está te escondendo algo (risos).

OSL: E de quais a gente deve ficar parceiro pra sempre?
ES: Eu, particularmente, confio nos meus motoristas, seja caminhão, ônibus, vans e carro… Se eles me disserem que o tempo de viagem é diferente do que está no Waze, por exemplo, eu confio neles.

OSL: Há regiões mais fáceis de trabalhar?
ES: Sim! Sul e Sudeste são as minhas preferidas. Essas regiões estão mais próximas da perfeição por receberem muitos shows e produções estrangeiras. Isso contribui, e muito.

OSL: Como é a distribuição de tarefas entre vocês ai? É uma equipe grande?
ES: Nas duas equipes (Marcelo D2 e Planet Hemp) há profissionais incríveis. Mal preciso falar com eles, apenas orientar no básico, como horários de saídas, por exemplo. Respondo pela produção artística e o produtor técnico fica mesmo com a parte técnica – som, iluminação, cenografia, painéis de LED, logística de palco, carregadores…

OSL: Lidar com pessoas é uma arte do produtor de estrada. Se alguém da banda ou da equipe está passando por um problema pessoal sério no meio de uma turnê, como você lida com isso? E o grupo como um todo?
ES: O suporte é total. Tivemos um momento em que a mãe de um dos músicos faleceu e estávamos em Nova Iorque. Cuidamos de toda a logística de ida e volta em tempo, para que ele pudesse se despedir. A NaMoral e todos à minha volta são muito humanos e preocupados com todos. Nós cuidamos muito da nossa equipe.

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OSL: Como você lida com dinheiro na turnê, com relação a contratantes e com relação ao time da estrada?
ES: A política da empresa é de não receber valores na estrada. Ufa! Que ótimo, porque isso era muito chato em alguns casos. No máximo, as diárias de alimentação, que precisam ser em espécie para serem distribuídas para o grupo.

OSL: Quando você opta por ônibus e quando você opta por voar?
ES: Acima de 700 km, aéreo.

OSL: Fora do Brasil, você é bem tratado? Você acha que os artistas brasileiros são mais mimados aqui?
ES: Aqui temos mais gentilezas e nos dão mais atenção. Lá fora, nosso gosto por atrasos e “jeitinho brasileiro” não são bem aceitos, isso sempre dá errado.

OSL: Ao encarar uma produção na Europa ou Estados Unidos, quais são seus maiores desafios? E aprendizados?
ES: Logística é o que mais me traz problema…. Estar no ponto de encontro no horário determinado tem que ser aplicado de verdade.

OSL: Como é o mercado internacional hoje pra artistas brasileiros?
ES: Acho demais, mega produções, equipamentos de última geração… Tudo isso nos ajuda a planejar e organizar nossas montagens e apresentações.

OSL: Você pensa em fazer outras coisas dentro do showbusiness?
ES: Sim! Aprender mais, atuar em novas aéreas e, de alguma forma, compartilhar meus conhecimentos.

OSL: Se você pudesse voltar no tempo o que você não faria? E o que você repetiria?
ES: Essa ficou difícil! Já sei: não aceitar um trabalho de show internacional com montagem no mesmo dia, como foi no Iron Maiden em Campinas. Tirando isso, faria tudo de novo.

OSL: Você se diverte mais ou sofre mais?
ES: Me divirto quando não estou sofrendo. Tem dias que os acontecimentos testam nossa paciência e isso me tira do sério. Mas no geral é tranqüilo.

OSL: Como você lida com a precariedade de equipamentos por aí?
ES: Ultimamente meus colegas têm ganhado alguns cabelos brancos. Ns últimos tempos não tenho lidado tanto com essa parte, mas sempre os ajudo quando as coisas se complicam. Hoje temos o mínimo necessário e disso não abrimos mão.

OSL: Já teve alguma surpresa difícil de contornar na estrada?
ES: Já. Hotel ruim, cidade lotada e só indo pra outra cidade para resolver. Daí, embolou de vez.  A logística querendo mais para fazer o trabalho, o tempo de deslocamento maior… Foi o dia nacional da reclamação! (risos)

OSL: Na sua opinião, qual é o ponto  mais sensível de uma turnê para o bem estar da equipe, e naturalmente seu sossego: dinheiro, transporte, alimentação, hotel, equipamento…
ES: Equipamento. Se o show for excelente, pra todos valeu a pena.

OSL: O que te tira do sério numa pré produção?
ES: As expressões “só um minuto”, “já faço” ou “já trago”. ME IRRITA.

OSL: O que te deixa mais feliz na estrada?
ES: Artistas satisfeitos.

OSL: Você sente que a crise afetou o seu dia a dia no mercado da música?
ES: Sim. Sumiu o dinheiro, diminuiu a alegria… (risos). Agora, estamos vendo muitos rostos preocupados e isso deixa tudo mais tenso.

OSL: Qual é a coisa mais legal pra acontecer na sua carreira que ainda não rolou?
ES: Aposentadoria em Waikiki (risos). Brincadeira! Ainda tenho muita lenha pra queimar e acredito que a produção executiva seja o futuro. Menos viagens, mais escritório.

OSL: Qual a melhor dica pra alguém que queira ser tour manager?
ES: Sempre tenha a informação e, se não a tiver, busque-a antecipadamente. Temos sempre de ter as respostas e com este posicionamento, tudo o que você disser será levado em consideração sem contestação.