On Stage Lab Entrevista: Horácio Brandão “O olhar do público é o que move”

Há 24 anos Horácio Brandão entrou para o ramo do entretenimento através da comunicação e, ao lado de Márcio Bandeira, fundou a Media Mania Assessoria e Marketing, que depois virou a Midiorama Comunicação e Imagem, consultoria e empresa de conteúdo artístico e informação. Se define como um “vendedor de sonhos” e hoje atua em diversas frentes sempre prezando o equilibrio entre as três pontas da pirâmide: mídia, clientes e fãs. O Portal Midiorama.com é seu pricipal projeto na atualidade. Ao longo de sua carreira atuou em todas as áreas do showbiz, e atendeu aos principais players do mercado (Move, T4F, Delate, Mercury), cuidou de grandes festivais (Planeta Terra, Lollapalooza, SWU) e atendeu a artistas nacionais como Ana Carolina, Marisa Monte, Milton Nascimento, Elza Soares, Sorriso Maroto e Preta Gil. O currículum de atrações internacionais é único em sua área e inclui nomes como Bob Dylan, Eric Clapton, Amy Winehouse, Kiss, Sex Pistols, The Police, Rush, Madonna, Beyoncé, Iron Maiden, Queen, Shakira entre outros. Ama o que faz, acredita em Deus e não crê em “zona de conforto”. Seu lema é “dreams come true”, o mesmo de Madonna, seu ídolo de adolescência que o fez sonhar em trabalhar com o entretenimento.

Entrevista: Fabi Lian

 

Horácio e a banda Kiss

Horácio e a banda Kiss

 

On Stage Lab: Horácio, você começou cedo. Conte como foi que você entrou neste mercado.

Horácio Brandão: Profissionalmente eu diria que comecei até tarde, aos 20 anos, quando cuidei da comunicação do meu primeiro espetáculo, o musical “O Perfume de Madonna” estrelado por Regina Restelli, em 1992. Antes de entrar para a faculdade de comunicação eu já tinha trabalhado na produção do programa de clipes Hit Parade da TV RIO em 88, e curiosamente, fui “empregado” por causa de minha relação de fã com a Madonna. Tinha um dos mais ativos fã clubes da cantora no Brasil naquela época, e me chamavam para uma consultoria, entrevistas, organizava fan meetings etc. Aí acabei sendo chamado para separar e escrever sobre clipes no programa de tv, fui fazer vestibular e cursar comunicação, abandonei o fã clube, mas recebi um telegrama da produção do espetáculo para fornecer as letras de “Material Girl” e “Like A Virgin”, já que naquela época não tinha Google. E pronto, aquele foi o divisor de águas, estava no lugar certo e na hora certa, uni meus profundos conhecimentos “madônnicos” com as noções da faculdade e entrei para a comunicação do showbusiness. Foi sensacional, eu tinha que promover um espetáculo musical com as canções da Madonna, com uma atriz da novela das 6 que era a cara da rainha do pop. Foi um strike. De repente estávamos em todos os programas de tv, capas de revista e de jornais. Foi minha primeira experiência prática mas acho que eu já tinha a teoria toda na cabeça e só esperava mesmo uma oportunidade para comunicar em massa. No verão de 92 eu peguei no tranco e dei início ao processo que me trouxe até aqui. Até hoje me surpreendo com os resultados daquele primeiro trabalho, estávamos em toda parte, capas da manchete, nos principais programas de entrevistas e auditórios e até na CNN fomos parar.

OSL: Desde pequeno você imaginava trabalhar com comunicação?

HB: Sempre fui o aluno popular, sempre me meti a montar, produzir, dirigir e atuar nos espetáculos da escola. Nas festas da família eu era o “Toni Manero” (risos). Meu avô era prefeito de uma cidade no interior baiano, meu pai político e minha mãe professora de música, some a isso o fato de eu ser baiano e boom! Meu destino estava traçado.
Na adolescência, no auge dos anos 80, quando o Rock in Rio nos deu de bandeja o assunto música com seus mitos e ídolos de todas as vertentes, eu fiquei vidrado naqueles personagens, passei a importar fitas de betamax da MTV americana, comprava todas as revistas, biografias e fui entendo a máquina promocional. Lembro de ler uma entrevista do Bono Vox falando sobre mídia, eu nem sabia o que o termo significava, mas ela fazia parte da minha relação com esses astros do entretenimento. Estudei o estrelato musical de trás pra frente.

OSL: Qual é a sua formação?

HB: Fiz Comunicação e Publicidade, mas, como disse acima, já trabalhava antes de me formar e minha maior escola foi observar os ídolos da música nacional e internacional, ver como se expressavam e eram assimilados pela mídia. Madonna tem boa parte da culpa na minha formação ou ” deformação” (risos). Elvis Presley, Michael Jackson, Freddie Mercury, Bob Marley, Beatles, Kiss, RPM, Menudo, também dividem as muitas informações que assimilei durante meu aprendizado. Na faculdade mesmo aprendi pouco, ja que quando você consegue entender a máquina da informação por dentro, tudo passa a fazer sentido.

Horácio e o Blue Man Group

Horácio e o Blue Man Group

OSL: Para os jovens de hoje, você acha que há uma formação específica que ajudaria a entrar no mercado de entretenimento ao vivo?

HB: Em mais de duas décadas pude perceber como mudou a relação das pessoas com a comunicação do entretenimento e a própria maneira de fazer. É interessante ter acesso a cursos de Relações Públicas, Jornalismo ou Publicidade, fazer cursos e ter noção de como é o mercado na prática. Dominar e entender as mídias sociais, navegar o mar de aplicativos, observar os meios, as mensagens e se puder ainda ter boas noções de fotografia, vídeo, edição. Saber assoviar e chupar cana é mandatório.

OSL: Como você começou a construir, duas décadas atrás, sua relação com a Imprensa?

HB: Era orgânico, escrevias os releases na máquina de escrever, passava horas na Xerox, grampeava tudo e ia com minha pastinha e cara de pau nas redações munido de fotos e boas histórias. É algo que você consegue ou não consegue, é sangue no olho, brilho no olhar, é preservar a qualidade da informação que passa. Não é oba oba, é ser fiel aos princípios de boa conduta, de boa vizinhança. O network vai se formando, as inúmeras varáveis de matrix vão se misturando e quando você vê, é fonte de informação contínua e de qualidade. É algo de grande responsabilidade e seriedade. Rala-se muito e ganha-se muito menos do que deveria.

OSL: Como foi o período de transição da diminuição de poder da grande mídia e a valorização de blogs independentes, fãs com seguidores? Quando caiu a ficha?

HB: Acho que a grande ficha ainda não caiu, ninguém sabe ao certo quais os ingreditentes usar, que gosto terá a receita no final. Não há uma determinação, isso funciona e aquilo não funciona mais. O que há é a necessidade de se preencher muito mais espaços, de se comunicar através de inúmeras plataformas, meios, fãs. Nada se exclui e nada também tem algum poder absoluto como era a tv no Brasil até pouco tempo atrás. É uma grande vitamina a ser feita e servida, saber dosar e inventar a própria receita é a ciência. Quem quiser aparecer, ser objeto de consumo e de atenção tem que fazer muito mais que abrir a janela.

Horácio e Shakira

Horácio e Shakira

OSL: O filtro que você fazia para uma coletiva de um artista é diferente hoje?

HB: Nunca pensamos em filtrar, ao contrário, sempre fomos os de agregar, misturar diferentes mídias, dar espaço a fãs sérios e organizados. Vamos pela capacidade do local, importância do artista, cumprindo algumas determinações de alguns artistas e muitas vezes enfrentando a resistência de “dinossauros” que ainda excluem mídias digitais. Mas não há como agradar a todos e há de se ter um critério, um deles ainda é a visibilidade e penetração.

OSL: Por que você acha que a Media Mania virou referência em comunicação para o entretenimento ao vivo tão rápido e agora Midiorama surge como fonte de informação para fãs além da mídia?

HB: Midiorama, que hoje é um portal de conteúdo oficial do entretenimento e que fala com jornalistas, fãs e ídolos em uma mesma plataforma, é a evolução de sua célula mãe que foi a Media Mania. Acho que fomos os primeiros a entender a comunicação de show business no Brasil com o cuidado com a imagem que percebia apenas no material e na forma de comunicação do cinema hollywoodiano ou de artistas internacionais. Entendi muito cedo essa qualidade Disney de se tratar um produto, um projeto. Outro fator fundamental foi sempre nos colocar no papel do público final, de quem efetivamente consome a informação cultural. Nunca pensamos apenas com o olhar do meio, ou do promotor, nosso olhar é também o de quem vê, se emociona, o público. Assim, o nosso cuidado com visual, com as peças promocionais, com o texto, sempre foi um importante componente. O Midiorama é exatamente isso, a melhor embalagem e meio que conseguimos produzir para emoldurar a comunicação do espetáculo. Todos os dias, nosso esforço é o de fazer diferença. Apostamos na qualidade e na diferença sempre.

Horácio e Brian May

Horácio e Brian May

OSL: Sua relação sempre foi de fã apaixonado, isto ajuda no seu trabalho? Já atrapalhou?

HB: Eu sou apaixonado pelo espetáculo, música e pelo que faço, não encaro trabalho como tarefa apenas, como dever, encaro como meio de ser feliz. Ainda me emociono com os fãs, a massa chegando uniformizada em um show do Kiss, sou fã dos fãs, isso sempre ajudou a entendê-los. Às vezes é dificil perceber como a “máquina” dos agentes, empresários, artistas e até veículos se cegam a grandes oportunidades de estarem mais próximos do público, mas brinco que o que fazemos aqui é vender “hypes” e sonhos. Tem dado certo e ainda não desisti de tentar.

OSL: Há clientes que tendem a culpar o trabalho da comunicação por um show que “flopou”, e sabemos que há muitos fatores além da divulgação correta para o sucesso. Conte um caso de trabalho em que você fez de tudo e o show foi um fracasso de bilheteria.

HB: Te juro que lembro de poucos casos. Quando dá errado, normalmente é por conta de diversos fatores dentre os quais a falta de tempo para fazer e de cálculo da dimensão do evento. Uma vez me chamaram 20 dias antes para fazer um auto de natal em Aparecida do Norte, as estrelas eram os protagonistas da novela Cabocla, Eriberto Leão e Vanessa Giácomo eram Maria e José e o elenco o mesmo da paixão de cristo de Nova Jerusalem. Aí calcularam o número de leitos e de romeiros na cidade e montaram tudo em um mega espaço do tamanho do Rock in Rio. Os romeiros em sua maioria com dinheiro contado não dormiam na cidade, não havia praxe de irem fazer um programinha antes de rezar e simplesmente ninguém foi e pra completar ventou muito e quando Deus apareceu na montanha de capim seco, fagulhas dos fogos de efeito especial ainda queimaram parte da montanha. Pedi ao padre para tirar a imagem da santa e fazermos uma procissão no santuário, todo mundo de figurino e transmitido ao vivo pela Rede Vida e o canal de Aparecida. Ajudou mas não resolveu! E nunca mais me esqueci do episódio.

OSL: Você lida bem com fracasso?

HB: A gente não se conhece direito, pois ando mais com o sucesso e eles não se frequentam. Aí eu me decidi a nem dar muita atenção ao ele, mas não trato mal, é ele lá e nós aqui (risos). Brincadeiras a parte, o fracasso é bem mais previsível que o sucesso e é de tanto tentar afastá-lo que o sucesso acaba sendo o resultado. A experiência somada aos contatos e um bom conteúdo e material ajudam no caminho do sucesso.

Tiësto, Zeca Camargo e Horácio em Porto de Galinhas

Tiësto, Zeca Camargo e Horácio em Porto de Galinhas