ON STAGE LAB ENTREVISTA MARCELO BERALDO

Marcelo Beraldo é o sócio responsável pelo conteúdo do Grupo Vegas. Beraldo começou com a produtora Barong e já foi coordenador de grandes eventos como TIM Festival, além de ter sido diretor da joint-venture Geo Eventos e o responsável pela vinda do Lolla para o país. A biografia de Beraldo é bastante curiosa: como um profissional do mercado financeiro foi parar no showbusiness? Descubra logo abaixo, nesse bate-papo especial.

OSL: Você tem uma formação de GV e logo foi trabalhar no mercado financeiro. Em que momento você queimou a gravata e teve o clique de “quero trabalhar com música e entretenimento?”
Marcelo:
Enquanto ainda trabalhava em banco de investimento, abri um restaurante como um negócio a parte, o JAM, que logo foi um sucesso. Então decidi largar o banco para me dedicar ao restaurante. Após dois anos tocando o restaurante, percebi que não era um gourmet, um grande apreciador de comida, vinhos, etc. Meu tesão era mais a música, meus amigos eram músicos, e como o JAM sempre teve música ao vivo, já lidava com isto ainda que indiretamente. Foi quando decidi que queria empregar na produção de shows tudo que havia aprendido no mercado financeiro. Ai abri a Barong que já tem 12 anos.

OSL: No quê esse background te ajudou?
Marcelo: Tudo. O mercado de shows e eventos talvez tenha sido o ultimo a se profissionalizar. Na época, os produtores mal sabiam falar inglês, fazer planilhas, ler contratos. Sabia que havia ali uma grande oportunidade ali se aplicasse a técnica do mercado financeiro, então muito mais maduro e profissional.

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OSL: Eu sempre solto rojão quando tem aluno da GV ou FEA em sala de aula nos cursos aqui… Tem um mercado gigantesco para gente com esta formação. Mas é raro estas pessoas chegarem até o entretenimento. Você que esteve do lado de lá, acha que tem algum preconceito? Falta informação sobre este negócio?
Marcelo: Não acho que tenha preconceito. Pelo contrário, há até um certo fascínio. Mas o que acontece é que é um mercado relativamente pequeno, que movimenta pouco dinheiro, paga mal, se comparado a outros mercados como tecnologia, bancos, telefonia, entre outros. Então, um cara que sai de uma faculdade de ponta, com cursos no exterior, falando inglês fluente, é assediado por indústrias que pagam muito melhor e também oferecem plano de carreira, algo impensável em uma produtora de eventos.

OSL: Tem um mito, para quem não vive o dia a dia, de que há muito gosto pessoal em curadoria/ programação. O que você acha que conta de verdade na hora de contratar atrações para um festival ou uma casa?
Marcelo: No princípio até há o desejo de se trabalhar com o que mais gosta, mas a realidade acaba fazendo a gente arriscar naquilo com mais apelo comercial, que não necessariamente tem a ver com gosto pessoal. Aliás, em boa parte das vezes, não tem. Em geral, se não há financiamento público, ou incentivo através de subsídios, o que conta mesmo, no final do dia, é a capacidade de vender ingressos que uma atração tem. Quando se consegue aliar vendas de ingressos com uma banda que gosto, é quase um êxtase.

OSL: Para você, trabalhar com produção executiva ajudou na hora de fazer curadoria e programação?
Marcelo: Ajuda no sentido de se fazer contas, de procurar métricas para que a programação seja bem-sucedida do ponto de vista empresarial.

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OSL: Você foi uma peça importante para a chegada e consolidação do Lollapallooza no Brasil. Você fez parte da negociação da sociedade da C3 com a GEO? Como foi isso?
Marcelo: Sim, o Lawrece Magrath, grande amigo, me chamou para trabalhar na Geo e foi quem teve a ideia de trazer o Lolla para o Brasil. Eu, ele e o CFO da Geo, Sandro Reis, negociamos o acordo com a C3 e eu fiquei chefe do projeto e encarregado de montar o lineup em concordância com a C3 e o Lolla do Chile, que então já tinha dois anos.

OSL: Como era estar a frente do booking de um festival que foi um divisor de águas?
Marcelo: Não acho que eu estava a frente. Foi um trabalho feito a três, Eu, Huston Powell da C3 e Sebastian de La Barra do Lolla Chile. Cada um opinava o que achava que funcionaria e calculava o budget que tinha. No fim, tinha que funcionar para todos. Aprendi demais com os gringos, eles estão 50 anos na nossa frente no showbusiness.

OSL: Como foi receber a notícia de que o Festival saiu das mãos da GEO, e depois que a GEO encerraria a operação? Por que você acha que isto aconteceu?
Marcelo: Eu já havia sido da Geo para retomar meus negócios que haviam ficado largado, principalmente a Barong, e também estava abrindo o Cine Joia com o Facundo Guerra. Sabia que seria um retorno temporário para a vida de funcionário. Não conseguia mais me adaptar, acho. No caso da GEO, acho que houve uma sucessão de erros mas não ouso apontar. Mas para mim o principal foi a falta de vontade dos sócios de realmente colocar o negócio de pé. Com suas razões, eles tinham outras prioridades.

OSL: O que é mais divertido: bookar conteúdo para as casas ou Festival?
Marcelo: Para qualquer projeto que tenha bons patrocinadores.

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OSL: Qual é o maior desafio em gerir tantas casas?
Marcelo: Entender, com agilidade, o que está funcionando e o que deixou de funcionar em termos de conteúdo. É tudo muito rápido, muito dinâmico. Tem-se que ficar atento.

OSL: Cada uma delas tem um estilo, um público. Vocês se dividem na gestão de conteúdo? E (conta o segredo) você tem uma preferida?
Marcelo: Temos um time que está sempre debatendo e trazendo novas ideias. Cada um tem suas preferências e suas visões diferentes. Os debates são muito legais. Quanto a ter uma casa preferida, acho que o Cine Joia. Sem querer vender o próprio peixe, mas como fã, considero o Joia uma das venues com mais alma no mundo. É uma casa única mesmo, e tira meu chapéu para o Facundo que viu ali um potencial que em 5 décadas, ninguém tinha visto. Mais recentemente, aprendi a gostar muito do Mirante e do Z também. O Mirante também é um caso a parte, algo que não se vê em nenhum outro lugar do mundo, e também sempre esteve ali escondido embaixo do nariz de todo mundo. Os shows na laje ali são mágicos.

OSL: Como é sua semana?
Marcelo: Meu trabalho é muito imerso em planilhas, dados e contratos. Eu com meu computador. Mas semanalmente temos reunião da equipe para que todos fiquem a par e decidam de onde estamos e para onde vamos. Duas a três vezes por semana tenho reuniões comerciais com patrocinadores, novos projetos, etc. Uma vez por semana tenho reunião com a equipe de desenvolvedores do GIG, nossa plataforma digital de música ao vivo.

OSL: Na trajetória em booking ou de empresário teve algum momento em que você quis parar tudo, bateu desespero?
Marcelo: Recentemente bateu um pouco, porque o mercado está muito incerto. Não está fácil conseguir vender ingressos. Todas as produtoras, independente do tamanho, estão tendo que se adaptar. Os fãs estão sem dinheiro, muitos sem emprego.

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OSL: Tem algum artista que você sonha em trazer um dia?
Marcelo: Meu grande sonho, antes de virem pela primeira vez em 2008, era o Pearl Jam. Até tentei uma estratégia que hoje vejo foi totalmente transloucada. Ano passado realizei um grande sonho de fazer Toots and the Maytalls e foi um super sucesso, sold out, um dos melhores shows que já fiz ou assisti como fã. Ele nunca tinha vindo para o Brasil, e eu já tentava há anos. Chorei. Agora, quem sabe o White Denim, banda que amo mas desconfio não venderia ingressos o suficiente no Brasil.

OSL: Em tempos de crise, é mais fácil ou mais difícil estar do lado da diversão?
Marcelo: Mais difícil. Como disse, a galera está realmente sem dinheiro, saindo bem menos.

OSL: A crise fez você rever os nomes que tinham em mente para as casas? Como você lida com os números na planilha de contratação internacional nestes tempos?
Marcelo: Não, mas revi o nível de risco que estamos dispostos a assumir. Para a contratação internacional, falar com produtores, parceiros, os agentes o tempo todo é muito bom, e o Excel é uma ferramenta importante. Não damos saltos no escuro.

OSL: Qual o momento da carreira que você mais gosta de lembrar?
Marcelo: O show do Foo Fighters no primeiro Lolla foi especial. Ver o Dave Grohl com a bandeira do Brasil foi um descarrego de realização pessoal e profissional. Foram meses de trabalho, e a sobrevivência do próprio Lolla dependia desta contratação, que desconfio, foi uma das mais difíceis da história. Aprendi demais. Era jogo de cachorro grande. Mas toda vez que vou a um show sold out no Joia, com as pessoas felizes, tenho a mesma sensação de dever cumprido. Também destaco o primeiro dia da primeira edição do Festival Internacional de Músicos de Metrô, um dos projetos mais bonitos que já fiz, que ganhou vários prêmios e uma ideia que havia nascido em Nova Iorque alguns anos antes. Não há nada como ver uma ideia dando muito certo!

OSL: Qual você quer apagar?
Marcelo: O show do Guru Jazzmatazz no Circo Voador no Rio de Janeiro. O Rap às vezes é muito dificil.

OSL: O que você acha que falta no mercado de entretenimento ao vivo? O que os empresários desta área não estão vendo?
Marcelo: Faltam patrocinadores e fãs com dinheiro. Temos no máximo uma dúzia de marcas que patrocinam música. É muito pouco. Quanto aos fãs, tenho esperança que voltem com bastante sede de entretenimento assim que a economia retomar. Em relação ao que os empresários não estão vendo, prefiro não me arriscar na resposta. Posso ser um deles.

OSL: Sua vida já estava tranquila e preenchida como empresário. Por que você foi inventar o GIG?
Marcelo: O GIG é o clímax da minha carreira. Olhando para trás, acho que todo caminho que percorri em quase 25 anos de vida profissional, coincidência ou não, parece ter sido especialmente desenhando para que eu chegasse a ideia do GIG e como realizá-la. Sei que é presunçoso e possa estar muito errado, mas não vejo nada no mundo como o GIG e o que ele pode fazer de revolução para o modelo de negócio do showbusiness. É realmente uma revolução. Se funcionar…hahaha

OSL: O que você acha que fará a diferença nos próximos 10 anos?
Marcelo: O GIG.

OSL: Como você se vê e ve o Grupo Vegas no futuro?
Marcelo: Vejo o GIG redesenhando o modo como se viabiliza economicamente shows e festas, como se faz marketing musical. Em relação ao Grupo Vegas, acho que sempre será uma fábrica de sonhos pós-moderna, tupiniquim, pós-Disney. Não acho que será muito grande em termos de faturamento e casas, mas sempre será diferente de qualquer outro grupo de entretenimento. É quase uma não-empresa… hahaha

OSL: Se você não estivesse aqui, onde você estaria?
Marcelo: Surfando na Indonésia e cuidando da minha filha, Lola.

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