ON STAGE LAB ENTREVISTA: Renato Da Silva

Entrevista: Fabiana J. Lian
Texto: Juliana Mello 

Renato Silva é um dos profissionais mais respeitados do showbusiness no país. À frente da BSS, Renato comanda a segurança artística dos maiores shows e turnês pelo país, e já viveu de tudo: de artistas calmos e de vida social tranquila à violência e falha estruturais em eventos. Nesta entrevista, Renato divide conosco como foi o começo de sua carreira, as dificuldades na área e seu aprendizado ao longo do caminho que trilhou: cuidar dos maiores artistas do mundo.

On Stage Lab:  Você começou bem cedo no showbusiness. O que veio antes? Segurança ou Showbusiness?

Renato da Silva: Segurança. Em 1988 fui chamado para trabalhar no show da Anistia Internacional e as portas do mundo se abriram para mim. Fui chamado para várias turnês internacionais e viajei com muitos artistas.

OSL:  Qual a sua formação?

RS: Sou engenheiro mecânico e na área de segurança fiz curso em Londres e USA de controle de multidão , acompanhamento VIP, entradas e saídas e plano de segurança, no Brasil tenho 23 cursos de especialização além de ser professor de Grandes Eventos na Academia de Policia do Rio de Janeiro.

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OSL:  O que você aconselharia hoje para alguém que quer ingressar no mundo de segurança artística?

RS: Primeiro que procure um bom profissional que o oriente, além de ter conhecimento de defesa pessoal, ser bilíngue e discreto. Mas acima de tudo isso, precisa ter caráter e bom senso, pois os convites aparecem quando você já tem uma estrada percorrida e quando seu nome não tem restrições pessoais.

OSL:  Como é o time perfeito para você?

RS: Aquele que só no olhar já sabe o que fazer, não tem ego e usa o seu conhecimento para um bem maior, não pensa no singular e sim no plural.

OSL: E o time impossível de trabalhar?

RS: Aquele que joga sozinho, que inveja o trabalho dos outros, que se acha o melhor e que acha que antiguidade é posto.

OSL:  Como você enxerga o profissionalismo  do entretenimento ao vivo hoje e nos anos 1980?

RS: A grande transformação aconteceu após o Rock in Rio de 1985. Na verdade, ele foi o divisor de águas do entretenimento brasileiro, naquele época tínhamos a vontade mas faltava experiência, hoje temos tudo a nosso favor, grandes profissionais, os olhos do mundo em nosso país e estrutura compatível com qualquer outro país para produzir um grande show e receber várias turnês ao mesmo tempo.

OSL: O que você sabe hoje e que te salvaria há uma década?

RS: O conhecimento do que fazer na hora certa. Como profissional já estive em todos os problemas possíveis em um evento ou em um acompanhamento: bomba, morte, incêndio, brigas, prisões, invasão, falhas estruturais, arrastões, com o tempo se aprende a administrar e até mesmo evitar várias coisas.

OSL: Como foi lidar com uma situação pessoal difícil em um momento importante da sua carreira?

RS: Em 2001 eu estava envolvido de corpo inteiro no Rock in Rio, administrando 1100 seguranças por dia e ao mesmo tempo estava com minha esposa com câncer em casa. Eu precisava estar com ela mas também sabia que o meu trabalho era muito importante para o sucesso do evento, optei por fazer o melhor trabalho do mundo e fiz, mas infelizmente perdi ela para a doença.

OSL: O Renato hoje é mais empresário ou mais chefe de segurança? Como eles convivem?

RS: Consigo administrar as duas coisas bem. Viajo em turnês, faço planos de segurança, dou aulas, palestras e estou treinando meu filho para administrar a empresa da melhor forma como sempre fiz.

OSL: A que você atribui seu sucesso profissional?

RS: Ao fato de ser sério, comprometido e acima de tudo honesto. Outra coisa é não deixar as oportunidades passarem sem pegar.

OSL: Como foi a migração da Pessoa Física para a Pessoa Jurídica? Como o mercado, seus contratantes, viram isso?

RS: Acabou sendo uma necessidade de sobrevivência, o mundo mudou e quem não se adequou a ele morreu. Todos precisavam de Nota Fiscal e um CNPJ para contratar, e eu fui rápido com isso e estou a 28 anos dirigindo a mesma empresa.

OSL: Que grande oportunidade alavancou sua carreira?

RS: Ter conhecido um empresário que confiou e acreditou em mim em 1990. O Phil Rodriguez, hoje CEO da Move Concerts, me mandou para a Inglaterra fazer um curso lá. Foi muito importante.

OSL: Como é trabalhar em família?

RS: Mais tranquilo por todos terem o mesmo objetivo, mas tem que ter foco para não misturar assuntos familiares com trabalho.

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OSL: Você fez turnês com os maiores artistas internacionais. Quais são os maiores desafios?

RS: Conhecer em pouco tempo as manias e necessidades de cada um, se incorporar a uma equipe que já se conhece há anos em pouco tempo e mostrar o seu diferencial.

OSL: Artista Teen….

RS: Os mais difíceis. Por serem novos, acham que o mundo lhes pertence, raramente são humildes e são imprevisíveis. Temos que lidar com fãs eufóricas e loucas para agarrar de qualquer jeito o seu ídolo.

OSL: Astros Brasileiros?

RS: Em geral são tranquilos e bem resolvidos, de fácil acesso e humildes, tratam os fãs com respeito e carinho, sabem que chegaram onde estão por eles.

OSL: Bandas “Coroas”

RS: Muita viagem, como já fizeram de tudo na vida, alguns ainda tentam, mas a idade avançada atrapalha as noitadas e as festas sem fim que tinham no passado. São agradáveis e escutam mais as dicas de locais.

OSL:  Uma situação que o sangue frio te salvou..

RS: Quando o palco do Guns & Roses desabou na Apoteose do Rio de Janeiro, tive a visão de não abrir as portas e lidar com o público fora, quando houve o acidente, entrei nas ferragens para ajudar quem pudesse estar lá, por sorte não tivemos óbitos.

OSL: Aliás, o que vc escolheria: Sangue frio ou conhecimento técnico?

RS: O certo seria dizer conhecimento técnico, mas o sangue frio te faz dar o passo extra, te leva a resolver rápido uma coisa que por meios normais iria levar tempo e tomadas de decisões

OSL: Qual o artista mais dfícil de trabalhar?

RS: Aquele que não te escuta sobre os perigos que podem ocorrer de escolhas erradas.

OSL: E  que turnê você repetiria todo mês?

RS: A que já fiz 3 vezes: Jack Jonhson

OSL: Quais são as melhores cidades para trabalhar?

RS: Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, pela estrutura e conhecimento que os profissionais de lá tem do mercado, até porque cerca de 90% dos melhores do ShowBusiness estão por lá.

OSL: Quais foram os maiores aprendizados sobre culturas no Brasil, América Latina e EUA?  

RS: O público de cada lugar é diferente. Enquanto o nosso é quente e pacífico, o americano é focado e organizado, exige muito do artista e cobra muito. Já o latino é agitado e mais fanático que o normal, eles fazem caravanas para ver seus ídolos.

OSL: O que ainda não  rolou na sua carreira que vc gostaria que rolasse?

RS: Difícil dizer, já rolou tanta coisa em minha carreira que acho que se pedir mais estarei abusando. Sou o único no Brasil a ter tido a oportunidade de trabalhar com mais de 250 artistas diferentes, de viajar pelo Mundo e curtir o mesmo luxo deles, visitei locais incríveis e fiz amigos em todos os lugares, minha empresa é líder no mercado de acompanhamento artístico com mais de 6.000 eventos e cerca de 450 acompanhamentos artísticos com agentes. Ou seja tirando a saúde que preciso, não quero nada em especial, só continuar por mais 30 anos fazendo o que gosto.

OSL: Qual a sua maior frustração?

RS: Ter escolhido atender a pessoa errada por estar comprometido e perdi a oportunidade de estar em um grande projeto que sempre admirei. Isso acontece quando se tem palavra e se honra o que assume.

OSL:  E sua maior alegria?

RS: Poder passar aos meus filhos minha carreira e meu nome, e saber que para eles sou um referencial no mercado que escolhi.

OSL: Como você lida com um fã alucinado?

RS: Com respeito e cuidado, evitando que ele se machuque ou que machuque a quem estou protegendo. Em geral eu explico a ele o momento de pedir e receber algo e evito que ele tome decisões que irão atrapalhar o trabalho.

OSL: Como você se vê em 5 anos?

RS: Com 58 anos e ainda fazendo o que mais gosto na vida: Segurança. Talvez quem saiba em um Centro de Treinamento ensinando outros a serem o que fui e sou.

OSL: Se você não fosse head security, o que vc seria?

RS: Produtor com certeza, estar organizando o sonho de muitos e poder fazer a diferença seria muito legal também.

OSL: Segurança pessoal ou de multidões?

RS: Pessoal com certeza.

OSL: Uma regra que vc nunca desobedece.

RS: Passar informações a quem não as pode ter. O sucesso de uma missão está na forma que você a conduz, se ficar amigo de quem quer atrapalhar ou se dar bem, vai acabar com seu nome.

OSL: Uma regra sem sentido.

RS: Encher a área VIP ou Premium de pessoas que não pagaram por isso, para agradar ao artista. Isso é um desrespeito com quem pagou. Muitos promotores fazem isso.

OSL: Você já chegou em um evento ou backstage e precisou mudar tudo? Conte como foi.

RS: Muitas vezes pelo Brasil encontrei barricadas sem proteção nenhuma para o público e para os seguranças, backstage com vários acessos, falta de material de combate a incêndios e amarrações erradas de estruturas. O que sempre faço é olhar tudo antes de iniciar o show e cobrar a mudança do que está errado ou faltando.

OSL: Já barrou alguém e teve problema  por isso?

RS: Várias vezes, a famosa frase” Você sabe com quem está falando” me trouxe  problemas, pois eu barro qualquer pessoa que não esteja autorizada a entrar em área restrita e em geral eu barro o sócio local do Promotor ou a namorada dele (risos).