ON STAGE LAB ENTREVISTA – SARA ELLER

No mês da mulher, nossa menina do showbusiness é uma das poucas produtoras que desbravaram o salão nobre do quartel masculino: a técnica. Criada no backstage, Sara passava as folgas da infância em turnê com o pai. A professora achava que ela fantasiava sobre as férias – coisa normal da nossa área, já que todo produtor tem histórias de bastidores tão incríveis que até parecem mentira para os “meros mortais”.

A moça cresceu, e hoje é figura conhecida e querida internacionalmente no mundo do entretenimento ao vivo. Nesta entrevista, Sara conta como é a vida louca de montagem, desmontagem, roadies e técnicos por todo lado.

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Sara e os amigos-irmãos, colegas de trabalho: Rodrigo Viertes, Thiago Machado e Daniel Pires.

OSL: Sara, o backstage está na história da sua família, então gostaríamos de saber um pouco mais sobre como foi sua infância.
Sara:
Meu pai sempre trabalhou com shows e minha mãe passeou por esta área também. Eles se separaram muito cedo e férias virou sinônimo de viajar seguindo a agenda de trabalho do papai. Durante minha infância, ele trabalhou com vários artistas – 14 Bis, César Camargo Mariano, Lô Borges, Fabio Jr – e um deles foi a Cássia Eller, que também é minha prima. Ela foi empresariada pelo papai nos dois primeiros discos/turnês; além disso eles moravam na mesma casa, que também era o escritório e estúdio de ensaio. E depois, na adolescência ele continuou nos levando aos shows e eventos que fazia.

OSL: Como foi crescer no showbusiness?
Sara:
Desde que me entendo por gente estava em algum backstage, estúdio, tour bus… Então esse ambiente nunca foi um mistério para mim. Era bem diferente da rotina normal dos meus amigos de escola, alguns não acreditavam nas histórias que eu contava e, por fim, parei de dividir essas experiências com eles. Cresci cercada de adultos não muito convencionais, que às vezes esqueciam que havia crianças no recinto. Vi de um tudo, viajei bastante, aprendi várias coisas e fiz amigos de várias faixas etárias. Foi legal!

OSL: Tinha uma pressão familiar para, ao contrário das famílias normais, Você ser uma profissional do showbusiness?
Sara:
No geral, minha família sempre me deu suporte para seguir o caminho que quisesse. Mas eu sabia que minha mãe pensava que eu teria uma vida mais tranquila se optasse por fazer faculdade e seguir uma carreira mais estável. Já meu pai sempre deu força para sermos artistas. Mas até o momento não saiu nenhum filho artista. Hahahaha!

A pequena Sara com a prima, Cássia Eller.

OSL: Qual a sua formação?
Sara:
Comecei várias faculdades e não terminei nenhuma. Fiz cinema, depois arquitetura e por fim, comunicação. Não durei mais do que dois semestres em nenhuma delas.

OSL: Você trabalhou em alguma área fora da produção?
eSara:
Durante a última tentativa de voltar a estudar, trabalhei como garçonete e bartender no restaurante de um amigo em Belo Horizonte.

OSL: Quando você começou na área que funções você exercia?
Sara:
Comecei no Rock in Rio 2001, era secretária de produção. A função principal era dar apoio aos produtores executivos, técnicos e equipe de montagem. Naquela época e-mail era novidade, ainda se usava fax, eu vivia redigindo memorandos e Nextel rádio era supermoderno. Aprendi a usar o Excel lá, com as planilhas de controle e inventário de todo o mobiliário e insumos da Cidade do Rock. Aprendi muito sobre montagem, prazos, cronogramas. E conheci vários profissionais maravilhosos.

OSL: Você passou por algumas áreas do backstage? Com qual você mais se identifica?
Sara:
Acho que já fiz um pouquinho de tudo, artístico, executiva, montagem, operacional… Mas a parte que mais gosto é o backstage em si, produção técnica e logística – montar cronogramas, gerenciar equipes, desenhar logística de carga e pessoal, acompanhar as etapas de montagem do palco e claro, a desmontagem. Adoro um caminhão! Gosto muito de teatro, também na parte técnica, principalmente dança contemporânea e ópera.

OSL: Como você se define profissionalmente hoje? E como você chegou aqui?
Sara:
Comecei por acaso, tinha parado de estudar e queria trabalhar. Meu pai – ele de novo! – me arrumou um emprego no Rock in Rio. Depois de lá não parei mais, fui chamada para outro trabalho, e emendei em outro e outro até chegar aqui. Fui fixa em algumas agências, mas prefiro ser freela. Acredito ser uma produtora versátil, sei um pouco de cada área e tenho uma boa compreensão do funcionamento de um evento / show / turnê. Mesmo quando não conheço alguma coisa, sei para onde correr e pedir ajuda. Gosto de trabalhar com planejamento e organização, mas os frios na barriga que os imprevistos causam ainda divertem, se forem poucos, claro. Acho muito estranho me qualificar, nunca sei o que escrever nos currículos e entrevistas da vida.

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Sara também tem seus momentos de fã!

OSL: Você é uma das poucas mulheres no Brasil desempenhando um papel majoritariamente masculino. Como você lida com isso?
Sara:
Muito comum trombar com alguém que não me leva a sério pelo simples fato de ser mulher. Vai de duvidar sobre o que falo de gerador a ser incapaz de empurrar um case. As vezes eles até estão tentando ser gentis, mas só reforça o estereótipo de mulher frágil. Dependendo do humor, até lido bem com essas situações, mas quando ofende fico bem brava. E não vou nem comentar sobre as cantadas nojentas e fora de hora. O jeito é seguir em frente, trabalhando.

OSL: Você encontra outras mulheres na estrada fazendo a mesma coisa. Você fez amigas? As mulheres são unidas no Rock’ n Roll?
Sara:
Fiz várias amigas sim, e, com certeza, existe uma fraternidade entre as minas na estrada. Mas também existe um pé atrás, acho que ainda rola aquele espírito de competição involuntário, fomos criadas assim, né? Eu tenho me policiado para não repetir esse tipo de comportamento, mas ainda acontece de vez em quando.

OSL: Belo Horizonte, São Paulo ou Rio? Explica pra gente sua relação de amor e funcionamento em cada uma destas cidades.
Sara:
Belo Horizonte é minha terra, minha mãe está lá, meus amigos-irmãos são de lá e a comida é maravilhosa! Só que não me vejo mais trabalhando nem vivendo lá. O Rio foi muito gentil comigo e eu vivia numa bolha muito confortável, mas agora que estou completando dois anos de São Paulo, acho que aqui é o lugar para estar, pelo menos por enquanto. Tenho mais amigos, mais oportunidades de trabalho, faz mais sentido.

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Sara também trabalhou na Copa do Mundo aqui no Brasil.

OSL: Qual desafio você enfrenta sempre?
Sara:
Balancear a vida na estrada com a vida doméstica. Além das tarefas domésticas ordinárias, tem a saudade de casa e do marido. Teve ano que passei mais de 200 dias viajando, é bem complicado. E quando você volta para casa ela nem parece que é sua mais.

OSL: Um momento que você gostaria de esquecer…
Sara:
Difícil essa, acho que tudo vale como história… Mas teve uma vez que senti muita vergonha. Estava em Belo Horizonte fazendo a produção local de um show do Moby, mas também tinha várias outras funções no escritório, abracei o mundo e acabei perdendo bloqueios de hotel. A cidade que já não tem hotel direito estava lotada com uma convenção médica e quase tive que enfiar gente em motel. Depois de muitos telefonemas, ajuda do chefe e chororô conseguimos acomodar todos. Foi sofrido e quando a equipe da turnê chegou nem queria olhar para eles, me sentia a pessoa mais incompetente do mundo. Ficou como aprendizado: não dá para abraçar o mundo e quando precisar de ajuda, grita!

OSL: Um momento de que você se orgulha…
Sara:
São vários, não sei apontar um. Na verdade, o que mais me orgulha são os relacionamentos que criei. Nessa área não se trabalha sozinho, a cooperação entre todos é superimportante. E a estrada aproxima as pessoas. Nunca duvidem do poder de união de várias noites sem dormir! Fiz amigos para a vida toda.

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Sara e sua gangue técnica.

OSL: Qual a diferença da Sara de 10 anos atrás e a de hoje?
Sara:
Há 10 anos resolvi que tinha que sair de Belo Horizonte e fui para o Rio. Com um pouco mais de experiência, mas completamente sem noção de como seria voltar para lá. Fui fazendo os trabalhos que apareciam, sem muito critério, mesmo porque ainda não tinha claro para mim o que eu sabia fazer direito. Hoje tenho mais entendimento das minhas habilidades e da melhor maneira de aplicá-las ao trabalho. E tenho a certeza de que sempre podemos aprender mais.

OSL: Você vê mudanças no papel das mulheres no showbusiness?
Sara:
Vejo sim, mesmo que lentamente. Tem muita mulher diretora de produção por aí, gerenciando orçamentos enormes, mandando muito bem. Na área técnica vejo menos mulheres, e na maioria das vezes são gringas. Mas elas estão lá e normalmente são muito boas no que fazem.

OSL: Como você se vê daqui 5 anos?
Sara:
Nossa! De novo falar de mim… Gostaria de ter uma agenda de trabalho definida com mais antecedência, ter coragem e oportunidade de abraçar trabalhos mais desafiadores e continuar crescendo.

OSL: O que ainda não rolou na sua carreira que você deseja muito que aconteça?
Sara:
Seria legal trabalhar em outros lugares – Europa, Ásia, EUA – conhecer outras dinâmicas de perto. Já viajei com banda brasileira para vários lugares e trabalhei para promotores pela América Latina, mas a estrutura de trabalho deles é bem parecida com a nossa. Queria ver o trabalho do outro lado.

OSL: Fora de turnê você “vira menina” de novo? Batom, vestido…
Sara:
Já fui mais vaidosa, acho que o trabalho colaborou muito com o meu lado tomboy. Maquiagem e vestido só quando a ocasião pede mesmo, na maioria do tempo estou de cara limpa, usando calça, camiseta e bota. Meu lado menina gosta mais de cremes, máscaras faciais e perfumes.

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Sara e os colegas durante o Guns, no Rio de Janeiro.