ON STAGE LAB ENTREVISTA: VERONICA PESSOA – A PERNAMBUCANA PAULISTANA

Veronica Pessoa é empresária do cantor e compositor Marcelo Jeneci, da cantora Ana Cañas e da banda O Terno. Fundou a Pessoa Produtora em 2010, uma empresa especializada em produção de eventos ligados à música e traz em seu currículo diversos projetos realizados. Veronica é formada em Comunicação Social pela Universidade Católica de Pernambuco, com Mestrado em Comunicação e Cultura pela USP. Começou sua carreira trabalhando com produção no Recife, no Festival Abril Pro Rock, e em seguida se mudou para São Paulo, onde trabalhou com Chico Cesar, Ivaldo Bertazo, Antônio Nóbrega, Arnaldo Antunes, entre outros.

Entrevista: Fabi Lian

On Stage Lab: Você migrou de Recife para São Paulo, como foi a sua adaptação aqui?
Veronica Pessoa: Sao Paulo é uma cidade que mais cedo ou mais tarde reconhece o que é bom. Adaptar-se aqui é trabalhar bem para trabalhar muito…
OSL: Por que vc decidiu se mudar prá cá? E quando foi?
VP: eu vim para São Paulo fazer um mestrado na ECA/USP e achei que assim que terminasse o curso voltaria pra Recife. No entanto, comecei a trabalhar a com produção aqui e percebi o quanto o mercado é mais sustentavel pelas bandas de cá. Fiquei!

OSL: Com quem e onde você trabalhou em Recife antes de vir para cá?
VP: Em Recife, meu primeiro trabalho foi como assistente de produção no Festival Abril pro Rock, com Paulo André Pires (meu primeiro chefe na produção).

OSL: Antes disso, você fazia outra coisa? Quero dizer, quando vc despertou para o “showbiz” (risos)?
VP: Antes tinha trabalhado com produção de TV, repórter, musicista e estava procurando meu lugar.

OSL: Ou, melhor dizendo.. que horas vc tomou aquela decisão errada.
VP: Foi tudo devagar: fui fazendo produção, entendendo que era boa nisso. Acho que a decisão sem volta foi quando resolvi abrir minha empresa.

OSL: Qual a sua formação?
VP: Graduação em jornalismo e mestrado em Comunicação pela Unicap/PE e Cultura pela ECA/USP.

OSL: Em SP então, seu primeiro trabalho levou a outro…
VP: Meu primeiro trabalho em SP foi com o Chico Cesar: produzia, empresariava, comprava a ração do cachorro, fazia tudo!

OSL: Migrar de producão para o gerenciamento foi tranquilo?
VP: Sim, foi natural: eu sempre curti planejar, organizar.

OSL: Daí a Pessoa aconteceu meio ” por necessidade”.
VP: Eu captei meu primeiro patrocínio e precisava ter uma empresa pra receber a grana! Assim, abri a PP.

OSL: Aliás, eu adoro o nome! Que sorte de ter um nome pronto prá chamar a firma, né?
VP: O nome quem deu foi o Arnaldo Antunes: eu trabalhava com ele e estávamos numa mesa de bar. Era aniversário do Jeneci e estávamos os dois pensando juntos num nome pra minha empresa. O Arnaldo chegou e não entendeu porquê estavamos procurando tanto se eu já tinha o nome!

OSL: A sócia não acha ruim?
VP: A socia é uma amiga-irmão, minha cara metade nessa batalha do dia a dia. Não temos problema de ego entre nós, está tudo certo!

OSL: Em que momento você percebeu que precisava de sócios?
VP: Chamei a Ana para fazer a produção de estrada enquanto eu ficava no escritório e ela receberia um cachê por show. Em três meses nesse formato, vimos o quanto somos complementares e decidimos virar sócias.

OSL: Como é a distribuição de tarefas entre vocês ai? É uma equipe grande?
VP: Que nada, prezamos por uma equipe pequena e próxima. Gostamos de estar em todos os processos, sempre que possível. Eu e Ana ficamos no núcleo dividindo as funções de empresárias, temos uma assistente de produção que fica no dia a dia conosco. Fora isso, para cada artista, temos um produtor, um assessor de imprensa e um assessor para mídia digital. Alem de administração e contábil.

Veronica Pessoa

OSL: Hoje vocês cuidam de quantos artistas? O papel da Pessoa é igual em relação a todos?
VP: Hoje temos três artistas: Jeneci, O Terno e Ana Cañas. O papel da empresa é bem parecido com os três, mas cada um tem sua dinâmica e seu jeito de se relacionar, o que deixa tudo diferente.

OSL: Como é o dia a dia aí?
VP: Uma loucura! (risos) Estamos sempre correndo e tentando fazer o jogo virar. Minha sócia diz que esse nosso ofício é uma São Silvestre sem fim, rs!

OSL: No seu nicho de artistas, vocês trabalham bastante no circuito SESC e locais voltados para os artistas independentes. Outro dia fecharam o puxadinho, e não parece ter mais tantos espaços assim hoje. Como você vê a quantidade de casas para este tipo de show no Brasil? E como é trabalhar com SESCs hoje?
VP: Acho que a falta de sustentabilidade das casas de show no Brasil hoje é um problema para a música. Precisamos encontrar uma equação que viabilize os espaços que têm musica ao vivo. O Sesc é um grande parceiro e é um prazer trabalhar com eles. Tem seu prós e contras, mas são muito organizados e prestativos, o que ajuda a realizar qualquer evento.

OSL: Os seus dois principais nomes, O Terno e Jeneci, estão bombando. Você enxerga uma migração possível pro Mainstream? Como tocar em breve em casas de 5000 pessoas.
VP: Trabalhamos para isso! Acho que o mercado hoje não favorece esse tipo de migração, mas é possivel. A trajetória é de crescimento, desenvolvimento de carreira, e o sucesso é conseguir evoluir na caminhada. Se der para chegar a 5000 pessoa, ótimo!

OSL: E quando isso acontecer você vai precisar fazer algumas escolhas e mudanças, né? Quais seriam elas?
VP: Acho que fazemos escolhas e mudanças a cada passinho que subimos nessa escada. Mas é so entender as escolhas que vale a pena!

OSL: Como é o mercado internacional hoje pra artistas brasileiros?
VP: Difícil. Logística cara, euro lá em cima, dólar disparado e cachês estacionados… As turnês internacionais geralmente nao se viabilizam e o espaço de inserção da imagem de um artista novo é apertado.

OSL: Às vezes você faz produção também?
VP: Sim, várias vezes! Primeiro, porque adoro estar perto dos artistas, do ofício deles. Segundo, porque fazer produção enriquece a gente! É chato, mas é bom!

OSL: Ter background de produção faz de você uma chefe impossível? Ou é do tipo didática?
VP: Acho que sou beeeem mais didática do que impossível…

OSL: A vida era mais fácil quando você era funcionária de alguem? Você dormia mais?
VP: Acho que eu até dormia mais, mas a minha natureza é a de ter meu proprio negócio. Entao, fica mais facil ser empreendedora do que ser funcionária de alguém.

OSL: O que faz você escolher um artista com quem queira trabalhar?
VP: A paixão! Pelo som, pela pessoa, pela dinâmica da relação.

OSL: Você já dispensou algum artista por ser mala demais?
VP: Sim, claro!

OSL: Você tem alguma história da qual se orgulha muito?
VP: Fico muito feliz por construir a carreira d’O Terno e Jeneci!

OSL: E uma frustração profissional?
VP: Ver toda cadeia criativa do meu mercado trabalhando tanto e ganhando tão pouco.

OSL: Como fica a vida pessoal em momentos de muito trabalho aí?
VP: Uma loucura! Namorado, pai, mãe, todo mundo sentindo falta e a gente sempre correndo!

OSL: O que te tira do sério numa negociação?
VP: O combinado não sai caro pra ninguém! Me tira do sério quando alguém não cumpre o combinado.

OSL: O que te deixa mais feliz na Estrada?
VP: A felicidade do público e artistas quando o show acontece. Quase paga meu cachê!

OSL: Você sente que a crise afetou o mercado da música?
VP: Muito! As pessoas às vezes até tem dinheiro, mas não podem gastar no ingresso, no cd, no livro. O contratante até tem verba, mas não pode comprar o show no valor de mercado pq não sabe se terá verba nos meses seguintes.

OSL: Você tem planos mirabolantes para 2016? Conta prá gente?
VP: 2016 é o ano do Terno: primeiro disco patrocinado e primeira turnê internacional! Fora isso, é provável que tenhamos o primeiro DVD do Jeneci.

OSL: Conte um pouco sobre a associação de produtores que você dirige?
VP: Produtores SP é uma associação que tentar manter o diálogo entre os produtores do mercado paulista e as três esferas da cultura no poder publico.

OSL: Qual é a coisa mais legal para acontecer na sua carreira que ainda não rolou?
VP: Um artista meu chegar ao mainstream.

OSL: Qual a melhor dica para alguem que queira ser empresário de artista?
VP: Acha que ainda dá tempo de sair correndo, fazer outra coisa? Então vá porque você está em dúvida. Para empresariar alguém, você precisa ter aquela certeza que o coração não deixa duvidar!