Os prós e contras do Carnaval de 2018

Por Juliana Melo

Eu tenho algumas memórias afetivas de outros carnavais: quando todo mundo ia pra rua ao longo do feriado todo, usando fantasias, brincando com bolhas de sabão, cantando as marchinhas, usando mangueira pra molhar a criançada e gastando água como se não houvesse amanhã… E de noite, vermelha do sol, eu deitava na cama e ficava vendo aqueles desfiles superglamourosos das escolas de samba do Rio de Janeiro. Carnaval e Salvador? O que é isso? Não era como é hoje.

E quando a gente trabalha ou quer trabalhar com entretenimento na vida, carnaval vira uma coisa séria; vira um dos eventos do seu calendário para trabalhar ou observar. E, por observação, a última década nos mostrou que o Carnaval teve viradas interessantes e algumas, tristes.

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Vamos começar por uma das más notícias: a crise 360 do estado do Rio de Janeiro mergulhou as escolas de samba em uma crise financeira que dificilmente tenha sido vista antes. Pra se ter uma ideia melhor, parte da verba das escolas vem da comercialização das fantasias para as alas. Em 2018, 11 das 13 escolas da liga especial no Rio tinham fantasias à venda 2 meses antes dos desfiles. Para essa época, anualmente, as fantasias já estão praticamente esgotadas. Nas alegorias, o uso de materiais reutilizáveis não é só uma questão de sustentabilidade ou de ser ecofriendly; a falta de grana fez todo mundo apertar os cintos com vontade para não atravessar nenhum momento difícil a não ser aquele apreensivo na avenida.

Até na hora do desfile, os sambas-enredo procuraram priorizar contar mais sobre a crise e os rumos da política no país, as reformas polêmicas do governo de Michel Temer, a crise do Rio… Conscientização, criatividade e um esforço dobrado acabaram fazendo do carnaval na Sapucaí algo melhor do que em anos anteriores, ou seja, grana a menos em caixa virou saldo positivo criativo e ideológico ao final.

Agora, carnaval de rua é um caso à parte. Os números crescem e minha infância vai voltando cada vez mais: as pessoas estão menos preocupadas em fazer viagens longas, caras na alta temporada, e preferindo um deslocamento menor; nada de avião até Salvador todo ano ou Olinda; de Recife pra Olinda, do interior do estado para a cidade de São Paulo, da serra fluminense até o Rio. Os blocos estão animando o carnaval de rua e junto com eles, as marcas finalmente passaram a enxergar um potencial diferente nessa modalidade de festa, pública, sem cordinha ou abadá, sem cobrança de ingresso. Ajustes, porém, são necessários.


OS HITS DO CARNAVAL

Com Ivete Sangalo fora do Carnaval 2018, o ano foi da diversidade na música. Apesar do hit engraçadíssimo “Envolvimento” (sim, eu disse APESAR), esse foi o carnaval da criatividade e do todo mundo canta todo mundo. A democracia musical vem se fazendo cada vez mais presente. Os blocos e os artistas que os comandam cantam de tudo, até Raul. E tocam de tudo: funk, sertanejo, pop, rock, axé, reggaeton, eletrônico… Foi o carnaval para pular, de fato!

Dois blocos, obviamente, chamaram a atenção do público: Anitta e Pabllo Vittar fizeram apresentações em blocos sem cordas e sem abadá, levando os foliões à loucura em Salvador, Rio de Janeiro e outras cidades. O Bloco das Poderosas foi sensação por onde passou, com Anitta desfilando com figurinos dos seus clipes mais vistos no ano passado, em especial os do projeto Check Mate e, claro, “Sua Cara”, com Major Lazer e Pabllo Vittar. Famosos choveram por seus shows e a cantora chegou a tirar sarro dos “influenciadores” que pedem ingressos pros seus shows.

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Pabllo Vittar foi outro nome forte: a controvérsia sobre a qualidade vocal da cantora pode até inspirar grandes e longos debates sobre conceito do que é música boa ou artista de verdade, mas fato é que ela foi um dos grandes nomes do Carnaval 2018 e capitalizou muito bem o poder que tem em mãos ao participar de ativações com grandes marcas como a Olla, C&A e se jogar no calendário do pré-carnaval, carnaval e pós-carnaval, pelo visto.

AS MARCAS X CARNAVAL DE RUA

A Ambev, através da Skol, marca patrocinadora do carnaval de rua de São Paulo e mais 29 cidades pelo país, fez uma belíssima aproximação do seu público com o uso do live marketing, mas deixou a desejar em outros recados importantes. Uma espécie de “revista” era realizada em alguns checkpoints de entrada nos blocos, mas só serviram para repelir a entrada de bebidas concorrentes. Por quê não contribuir para a segurança do folião e disponibilizar mais pessoal // checkpoints para uma revista que busca por armas brancas, por exemplo? O carnaval de rua de São Paulo foi maravilhoso do ponto de vista lúdico, do ponto de vista de pegação, do ponto de vista de qualidade artística e de produção dos blocos. Mas deixou demais a desejar no quesito violência.

ERROS DE PLANEJAMENTO E OPERAÇÃO

A administração de João Dória também andou pisando na bola feio com os foliões: câmeras foram instaladas para monitorar os “mijões de rua” para a aplicação de multas, mas NADA foi feito para coibir furtos e roubos de celulares, bolsas, carteiras durante a apresentação dos blocos de rua. A GCM tinha grande presença próxima de sua base, na Praça Roosevelt, mas não se mexeu muito para resolver ou dar voz de prisão aos grupos de 3 a 10 pessoas fazendo pequenos arrastões, ou os famosos meninos de bicicleta com armas brancas assaltando ao longo do Minhocão. O Governo do Estado também não fez tão bem assim sua parte: a PM estava patrulhando? Opa, tava sim. E o que estava fazendo para coibir essas mesmas ações de violência? Nada.

Claro, ninguém estava prevendo um aumento de 300% no número de foliões por aqui, mas também não precisamos ver PM e GCM de braços cruzados, vendo o trio elétrico passar, né? Carnaval de rua está gerando bons resultados financeiros para várias cidades brasileiras e queremos ver esse dinheiro arrecadado reinvestido em políticas de segurança pública, por exemplo. Afinal, de acordo com o Ministério do Turismo, esse Carnaval injetou cerca de 11 bi na nossa economia, com até 95% de ocupação dos hotéis e mais: 2018 foi um ano histórico para esse feriado, por ter sido o melhor Carnaval em termos de hotelaria, viagens e turismo até hoje.

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Já sabemos por alto que esse aumento no número de foliões de rua por todo o país deve se estabilizar e, por essa razão, o planejamento de 2019 deve começar agora: a avaliação e resolução de problemas operacionais é certamente a primeira e mais importante das etapas desse planejamento. A verba precisa ser redirecionada para os gargalos que importam mais: políticas de prevenção para a segurança pública, melhor posicionamento de checkpoints e acessos, manutenção e aumento dos banheiros químicos (isso é uma grande súplica da vida), melhor posicionamento dos postos de atendimento médico.

Em suma, Carnaval cada vez mais organizado é sinônimo de melhoria do público, do consumo, da movimentação da economia. Prefeituras devem repensar suas estratégias e unir forças com governos e iniciativa privada para que todos finalmente saiam ganhando.

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