OSL Entrevista – Alexandre Wesley e os desafios do Lollapalooza

Batemos um papo com Alexandre Wesley, gerente internacional de turnês da Time For Fun, e ele nos contou um pouco sobre sua carreira, quais foram seus primeiros passos, e os grandes desafios de tocar um dos maiores festivais brasileiros, o Lollapalooza Brasil! Confira abaixo:

ON STAGE LAB: Como você entrou no mundo da música?

ALEXANDRE WESLEY: Meu primeiro trabalho com música foi um estágio na Warner Music, na área de promoção em ponto de venda, em meu primeiro semestre na Universidade (PUC-RIO) através de uma inscrição no CIEE. O trabalho era visitar lojas de disco (vinil ainda) com pôsters e discos promocionais para mostrar aos lojistas. O curioso é que depois desse período de 6 meses de estágio, alguns bons anos depois, voltei a trabalhar na Warner onde fiquei por 14 anos.

OSL: Como foi migrar de gravadora para o entretenimento ao Vivo?

AW: São duas realidades muito diferentes, que formam junto com o time de agente/empresário o tripé que sustenta a carreira do artista. A gravadora busca resultado no longo prazo, com contratos de pelo menos 3 ciclos, e cada um desses envolvendo um longo período de concepção e gravação de um álbum, lançamento e trabalho de marketing. Evidentemente isso inspira os executivos das gravadoras a cultivar relações de longo prazo com os artistas. O promotor de show por sua vez está muito mais focado no tempo específico do ciclo de uma turnê. É claro que os promotores de shows também buscam cultivar relações de longo prazo com artistas, empresários e principalmente agentes, mas o negócio é desenvolvido com o horizonte no curto prazo. Essa é somente uma das diferenças entre os dois negócios, mas que tem um impacto muito grande na atuação de seus executivos.

OSL: Se você tivesse ficado em gravadora, como seria sua vida hoje?

AW: Quando deixei a Warner Music em 2010 tinha a percepção de que o negócio discográfico estava sem saída. As gravadoras ainda estavam muito engessadas no modelo industrial, e sem muita habilidade para interagir com uma nova geração desapegada do meio físico que elas ofereciam (CD, DVD, Blue Ray, Laser Disc, etc). Ainda vejo pouca iniciativa das gravadoras em fazer negócio com outras empresas em outros segmentos (publicidade, licenciamento, shows, festivais, broadcasting, etc). Respondendo a pergunta, talvez estivesse focado em estruturar essas parcerias em busca de uma nova identidade para a gravadora usando sua principal capacidade que é de desenvolver artistas.

OSL: A T4F funciona de maneira muito diferente do restante do mercado. Ter feito parte de uma grande gravadora te ajudou a estar na maior empresa de entretenimento ao vivo da América Latina?

AW: Trabalhei em duas grandes gravadoras (“majors”) – Universal e Warner – e aprendi muito com elas especialmente no que diz respeito a estruturar planos de negócio e marketing, e implementar negociações integrativas entre as gravadoras, seus artistas e veículos de mídia. Além disso, uma gravadora multinacional é uma escola para protocolos e processos. Mas o negócio de shows tem uma dinâmica muito mais intensa e seguramente a T4F tem um modo diferenciado de gestão, com muito foco na performance de cada um dos projetos e especial investimento na inteligência de mercado através de pesquisas. Queremos acertar em todas as frentes e para isso precisamos conhecer o nosso público, o que ele quer e quanto quer pagar, conhecer os custos de produção intimamente, e agir sempre com rapidez aproveitando oportunidades para contratar artistas, promovê-los da melhor forma possível, e buscar a melhor performance possível, que se traduz em resultado econômico e satisfação do público.

OSL: Qual é o maior desafio na criação de um festival internacional no Brasil?

AW: O maior ativo de um festival é seu posicionamento. Quem é seu festival? Qual os atributos que o definem? Portanto o maior desafio é o de ‘defender’ esse posicionamento para que o público encontre de verdade o que espera quando abrirem os portões. E para que as marcas que à ele se juntaram estejam de verdade beneficiadas pela associação de imagem com aqueles atributos prometidos.

OSL: Você participa da curadoria do Lollapalooza? Como são decididas as atrações do festival?

AW: O Lollapalooza é um festival com foco na cena musical da atualidade. Pretende-se trazer ao público brasileiro um mix de artistas que estejam de fato fazendo diferença na música mundial. Por isso o festival tem um público tão jovem e ‘antenado’. Para se chegar a este mix vamos buscar ideias nos grandes festivais em todo o mundo (Lollapalooza Chicago, Austin City Limits, Bonnaroo, Coachella, Glastonbury, etc). Além disso fazemos diversas pesquisas com o nosso público-alvo. Queremos saber o que nosso público está ouvindo e o que deseja. Juntamos essas informações ao que existe de mais relevante no mercado para trazermos.

OSL: Trabalhar com uma marca como o Lollapalooza facilita a vida na hora de negociar com artistas?

AW: Com certeza. Isso não significa que podemos pagar menos mas seguramente temos a atenção de todos os artistas do mundo.

OSL: A marca representa mais ou menos liberdade para a T4F?

AW: Uma marca internacional acompanhada de tantos ‘guidelines’ dificilmente pode ser associada à liberdade. Mas produzir um festival anualmente pode sim significar ‘liberdade’. Não importa se um determinado artista esteja disponível ou não, ou mesmo que um outro não esteja interessado, o festival vai acontecer.

OSL: Como são feitos os orçamentos de um evento desse tamanho?

AW: Todas as áreas da empresa contribuem com inteligência para a elaboração do orçamento. A busca é incessante para atingir o melhor equilíbrio daquilo que queremos oferecer ao que podemos de fato. Muitos ‘trade-offs’ no processo. Muita negociação com fornecedores. Até o último minuto estamos brigando por esse equilíbrio para oferecer o melhor possível sem perder o mínimo de resultado que permita a sobrevivência do festival. Levamos o orçamento muito a sério e somos mesmo obcecados em acertar em nossas previsões, mas tratamos o ‘orçamento’ como mais um elemento dinâmico dessa receita e passível de ser modificado e ajustado com o objetivo de oferecer melhor experiência, obter melhor resultado, ou equalizar perdas.

OSL: Quando o festival migrou para as mãos da T4F depois de duas edições. Sua missão era….

AW: O primeiro momento foi de avaliar o que foi feito anteriormente pela GEO (que cuidou das edições de 2012 e 2013). Quais os acertos e os erros, e o que poderia ser relevante para montarmos nosso modelo de negócio. Questionamos tudo, desde o local até a quantidade de atrações. Consideramos vários modelos diferentes, preços, custos, parcerias, até chegarmos ao modelo que achamos o ideal e o que poderia melhor se relacionar com o DNA do festival (POSICIONAMENTO). Fomos conhecer mais de perto o festival em Chicago e ouvir do próprio Perry Farrell suas orientações. Depois disso foi colocar tudo em prática. A minha principal função nesse primeiro momento foi a de traduzir o que seria o nosso festival para toda a companhia e parceiros (patrocinadores, mídia, produção, etc) de modo que estivéssemos perseguindo juntos o mesmo objetivo.

OSL: O que ainda falta melhorar na experiência dos fãs que vão ao festival?

AW: Nossas pesquisas refletem que não há uma coisa em especial que precise melhorar muito. Mas nós entendemos que tudo precisa seguir melhorando a cada ano. Entrada, saída, som, luz, fogos, banheiros, bares, lixo, decoração, tendas, mercado, palcos, camarins, transporte, horários, fluxo, rádios, transmissão, bilheteria, acessos, serviço, credenciamento, efeitos, equipe, limpeza, brinquedos, tudo é levado em conta e melhorado ano após ano para manter a qualidade da experiência dos fãs.