PELA QUARTA VEZ NO BRASIL, FOO FIGHTERS TRAZ MAIS UMA GRANDE TURNÊ INTERNACIONAL AO PAÍS

Por Danielle Lage 

Depois de 2001, 2012 e 2015, o Brasil voltou a entrar no calendário do Foo Fighters no fim de fevereiro/ início de março de 2018. Com cinco apresentações em quatro cidades, a banda americana trouxe o show de seu nono álbum – Concrete and Gold – para mais de 160 mil pessoas. Além de algumas (poucas) músicas novas, a banda fez o que sabe melhor: verdadeiros espetáculos com hits seguidos de hits e mais hits.

Precedidos pelos brasileiros do Ego Kill Talent e pelos amigos do Queens of the Stone Age, o FF começou a turnê brasileira pelo Rio de Janeiro, no domingo 25/02, no Maracanã. O público parecia querer mesmo ver o headliner da noite – a sensação foi que a maior parte chegou durante o show do QOTSA. O evento não estava esgotado, mas bem cheio. Pontualmente às 21h30, Dave Grohl entrou no palco correndo e arranhando sua guitarra azul, seguido por seus cinco companheiros.

Se comparado ao dos shows que a banda fez na Australia e Nova Zelandia, perna anterior à América Latina, o set list foi bem seguro e comercial. Apesar de muito bom, não trouxe nenhuma surpresa – pelo menos para os fãs mais dedicados. A performance começou com “Run”, primeiro single do novo álbum que, mesmo não tendo entrado em charts digitais no lançamento, já se mostrou um clássico ao vivo – todo mundo pulou e cantou junto. A única escolha mais arriscada foi a também nova “Make it Right” que pareceu não agradar: não entrou em mais nenhum dos quatro shows seguintes.

O momento especial da noite ficou por conta da declaração de amor que Dave fez a Taylor Hawkins, dizendo que ele era o “Love of My (his) Life”: o baterista, que é um grande fã declarado de Queen, puxou imediatamente o início da música e foi acompanhado por todo o estádio. Talvez sem saber, Taylor recriou uma das imagens mais emblemáticas que temos de shows no Brasil quando Freddie Mercury foi acompanhado por um Rock in Rio lotado durante essa mesma canção.

A segunda apresentação foi em São Paulo, na terça dia 27, no Allianz Parque. Dessa vez o público parecia estar mais interessado nas bandas de abertura: no início do Queens, às 19h, a impressão era de que a plateia já estava quase completa, mesmo sendo dia de semana. O “Show 1” de SP foi o mais cheio da turnê, com 42 mil pessoas.

O set list seguiu igual ao do Rio até a 12ª música – entraram os clássicos “Big Me” e “Generator”, e a nova “Dirty Water” que, apesar de linda, não pareceu a melhor escolha pra volta do bis. Além de nova, é uma música que começa mais lenta e acabou esfriando o público que estava quente e esperando mais porradas, logo depois de gritar OH OH OH por 10 minutos em “Best of You”. Mesmo tendo exatamente a mesma duração, 2h30 min, foram 22 músicas no total, uma a mais do que no Rio.

O terceiro show no Brasil, e segundo em SP, foi na quarta 28 de fevereiro. A plateia tinha quase 10 mil pessoas a menos do que o dia anterior, mas a diferença parecia maior: o terceiro anel do estádio estava fechado e as pessoas que estavam nas cadeiras superiores foram realocadas nas inferiores. A dúvida se essa segunda noite em SP era mesmo necessária foi respondida com um nome: Lucas! O protagonista do momento mais surpreendente dessa turnê fazia 17 anos naquele dia e pediu pra tocar “Under Pressure” com a banda. Convidado (ou desafiado?) por Dave, o fã assumiu as baquetas e não decepcionou. Além de tirar onda na batera, Lucas teve Taylor mudando a letra da música pra encaixar seu nome (Why can’t we give love Lucas give love Lucas give love Lucas…) e um estádio inteiro cantando Parabéns pra ele!

Sobre o set list, talvez pra já deixar claro que seria diferente do dia anterior, a banda começou com Everlong – algo que acontece muito raramente já que essa é a música que sempre encerra os shows. Além dessa mudança, teve também a inclusão de “I’ll Stick Around” num total de 23 músicas. E mais uma vez, apesar de prometer em todas as noites que tocaria faixas de todos seus nove álbuns – e falar mal de seu quarto disco, que só tem umas 3 músicas boas – Dave deixou o “Sonic Highways”, de 2014, totalmente de fora dessa tour no Brasil.

A próxima parada foi Curitiba, onde a banda tocou pra uma Pedreira Paulo Leminski lotada na noite de sexta, 02 de março. Em todo show, Dave Grohl pergunta quem já esteve e quem nunca foi a um concerto do Foo Fighters, parecendo querer se justificar de antemão pelo setlist “genérico”. Naquela noite, grande parte das 24 mil pessoas nunca tinham visto a banda antes, já que era primeira vez que tocavam por lá! Então pra que inovar? O set list foi idêntico ao da primeira noite de São Paulo! A única mudança foi o lançamento da mais nova descoberta da banda: que é possível cantar “Jump”, do Van Hallen, em cima da base de Imagine, de John Lennon. No mínimo confuso, mas divertido!

Do novo álbum Concrete and Gold, além de “Run”, “Make it Right” e “Dirty Water”, vale destacar que o Foo Fighters adicionou também “Sunday Rain” e “Sky is a Neighborhood” aos shows. A primeira toma o lugar que era tradicionalmente de “Cold Day in the Sun” e passa a ser o momento apoteótico do baterista Taylor nos vocais. E a última, cresce tanto ao vivo com as luzes e backing vocals femininas que tem potencial pra ganhar lugar cativo nos sets das próximas turnês.

Antes de seguir pra Buenos Aires, o grupo passou ainda pelo estádio Beira Rio, em Porto Alegre, no domingo 4 de março. O público enfrentou nada menos do que uma chuva de granizo quanto já fazia fila pra entrar, por volta das 17h30, mesmo assim recebeu de braços abertos a banda de abertura Ego Kill Talent (cujo vocalista, Jonathan Correa, é gaúcho!), fez festa com Josh Homme e seu QOTSA, e empolgou tanto o Foo Fighters que foi a única cidade a ter um chorinho no final do show: foram quase 10 minutos a mais que as performances anteriores! O set list seguiu sem surpresas, mas não comprometeu a alegria da banda e da plateia.

Tirando as questões de repertório, os shows foram tecnicamente perfeitos, telão cristalino, iluminação e som impecáveis – nem mesmo uma corda de guitarra foi sacrificada no processo! Verdadeiros espetáculos que muito provavelmente farão todos esquecerem da frustração que foi ver os ingressos serem vendidos pela metade do preço algumas semanas depois de abertas as vendas – quem quis garantir seu lugar logo na pré-venda/ abertura acabou prejudicado. A Pista Premium, questão historicamente controversa, também é um ponto que pode ter causado insatisfação em Curitiba – onde não havia alimentação disponível, apenas bebidas (pra comer, tinha que ir na pista comum!) – e Porto Alegre – onde a área privilegiada ia até quase metade do gramado. Menos impactante, já que poucas pessoas fazem a turnê inteira, mas ainda assim curioso foi perceber que o valor do merchandising e da cerveja variavam de cidade para cidade. E um pouco decepcionante foi ver a iniciativa de ter um copo retornável perder o sentido quando serviam a bebida num copo descartável dentro do retornável – o meio ambiente não curtiu!

Antes de encerrar, preciso dizer que sou fã da banda e que com essa turnê no Brasil cheguei a marca de 21 shows do Foo Fighters, em 17 anos. Na minha opinião, essa não foi nem de perto a melhor turnê em termos de repertório, mas talvez seja a que vai fazer com que o FF volte ainda muitas vezes ao Brasil. Com 23 anos de carreira, ficou claro que eles já tem sucessos suficientes para atrair muito mais do que só os hardcore fans. Os shows foram compostos de um público bem diverso, que foi se divertir, cantarolar três ou quatro músicas, beber, esperar ansiosamente por “Everlong” e postar muita foto no Instagram: e isso não tem absolutamente nada de errado! Apenas confirma a popularidade do artista e da marca que ele criou, e garante que eles podem voltar muitas vezes mesmo se não emplacarem mais nenhum grande hit nas paradas, cada vez mais efêmeras. Assim como Metallica, Bon Jovi, Pearl Jam, Coldplay, Iron Maiden, entre outros, o FF entra pro hall de bandas que acharam o caminho do Brasil e não pretendem perder tão cedo. Por mim, tudo certo! 😉

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Fotos: Rafael Koch Rossi