“POST TRAUMATIC”: como Mike Shinoda lidou com a morte Chester Bennington

Em 2017, o tema suicídio foi recorrente nas discussões online entre adolescentes e jovens. O lançamento da série “13 Reasons Why” pela Netflix causou grande impacto no público e permitiu que o assunto fosse amplamente discutido, mesmo com o peso de falar sobre algo tão cheio de tabus. O mundo da música acabou contribuindo para o calor do debate: Chris Cornell traumatizou os próprios colegas e amigos na cena, além dos fãs, ao tirar a própria vida. Chester Bennington, do Linkin Park, parece ter sentido bastante a perda e que esse seria o caminho que ele mesmo tomaria, cometendo suicídio alguns meses depois.

A morte de Chris afetou as pessoas de um jeito, a de Chester, de outro. Não estamos aqui para comparar impactos, mas é fato que o fandom do Linkin Park ficou visivelmente chocado. Muitos dos fãs da banda viam na música de Chester uma alternativa ao suicídio. Nunca foi segredo as dificuldades sociais e a luta que Bennington travava internamente, e ele nunca deixou seus fãs no escuro: Chester sempre declarou que a música também era a alternativa dele ao suicídio. Infelizmente, os pensamentos obscuros foram mais forte do que ele. E trouxe consequências para quem ficou vivo.

O Linkin Park sempre foi uma grande banda. Ela faz parte de uma nova geração da música, de uma retroalimentação do rock em geral. Não adianta o leitor desse texto pensar o contrário: o Linkin Park gerou relevância introduzindo com grande maestria elementos do hip hop em uma sonoridade já pesada, com letras ainda mais pesadas, com música eletrônica… Gosto de pensar no Linkin Park como um coletivo de artistas que sabem fazer releituras sonoras das próprias influências.

Mike Shinoda e Chester Bennington formavam uma dupla imbatível: ambos de grande criatividade – Chester para escrever lindamente e Mike para dar vida às palavras do parceiro no crime musical. Mike é uma grande potência dentro da música. Ele é músico, compositor, produtor musical… Mais fácil dizer o quê Shinoda não faz. E ao lançar o EP “Post Traumatic” ele mata dois coelhos numa cajadada só: mostra que tem um potencial incrível para continuar sem o Linkin Park, se assim ficar definido (apesar de já ter declarado que a banda seguirá, nunca sabemos o quê pode acontecer) e faz uma linda homenagem a Bennington.

fcd6d3f1-9aca-47e5-9cc6-5931aad4b82e
São três faixas de extrema intimidade revelada em forma de música. Ele usa os elementos sonoros que são de sua zona de conforto, é verdade: teclados, samplers, tudo muito simples. Mas causa grande impacto pelas letras e o cuidado de pós-produção em cada faixa. “Place to Start” é basicamente a reação de Shinoda ao suicídio do amigo. E é uma reação inclusive bastante comum entre as pessoas mais próximas de alguém que tira a própria vida. Shinoda fala de como sentiu-se mal e, de certa forma, culpado por não se achar “acessível” ao amigo e parceiro na música. Ao final da faixa, a voz de Chester Bennington deixando mensagens para Shinoda provam o sentimento de culpa: “desculpe te incomodar, sei que você está superocupado”.

“Over Again” retrata o processo da volta aos palcos do Linkin Park, em especial de como essa foi uma experiência dolorosa e estranha para Shinoda. “There’s no way that I’ll be ready / To get back up on that stage / Can’t remember if I’ve cancelled any show / But I think about what I’m supposed to do / And I don’t know / Cause I think about not doing it / The same way as before / And it makes me wanna puke / My fucking guts out on the floor.”

“Watching As I Fall” é uma narrativa mais direta sobre o momento em que Shinoda percebe que perdeu seu melhor amigo, e pior, que esse amigo cometeu suicídio. Mostra dois lados de uma mesma moeda: a repercussão do suicídio do Chester na mídia versus os sentimentos pessoais, privados de Mike, da banda e da família. Para Mike Shinoda, ainda é um tanto contraditório “viver normalmente” depois da tragédia que recaiu sobre seus ombros.

Shinoda também gravou e editou vídeos para cada faixa, acima. Dá pra notar que o EP todo é uma grande homenagem e um alerta pessoal de que sentimentos como culpa, remorso e medo estão rondando o coração desse artista. No processo da perda e do luto de um suicida é difícil pra quem ficou entender que precisa-se retomar a vida sem “vergonha” da própria felicidade. E sem sentir culpa disso. Afinal, a vida continua e, esperamos, a carreira solo de Shinoda também.

Salvar