Proprietário da AEG cancela apoio financeiro a grupos anti-LGBT, mas doou US$770.000 em 2016

por Deca Pertrini

| A cabeça de Phil Anschutz ficou sob fogo cruzado no ano passado sobre suas contribuições para caridade, mas novos registros de impostos mostram dinheiro dado à organizações conservadoras|

Apenas um ano depois de Phil Anschutz, proprietário da AEG, enfrentar críticas por dar dinheiro a grupos acusados de serem anti-LGBT pelo Southern Poverty Law Center, novos documentos financeiros dão mais dor de cabeça ao dono do Coachella e do Staples Center em Los Angeles.

Documentos recentes de impostos da fundação de Anschutz mostram US$770.000 em doações e compromissos feitos com pelo menos sete grupos acusados por organizações de defesa dos direitos dos homossexuais de darem declarações anti-LGBT no passado.

A Fundação Anschutz também fez doações a grupos conservadores que lutam contra a pornografia, sindicatos e legalização da maconha.

Essas contribuições representam menos de 1% dos US$ 63.7 milhões doados por Anschutz e dos US$16.7 milhões recebidos em 2016, feitos através de cerca de 900 doações que foram de US$1.000 a US$ 2 milhões para cerca de 800 diferentes grupos, na sua maioria nos estados do Colorado e Oklahoma.

A maioria das doações foram feitas à caridades sem ideais políticos: grupos como Boy and Girls Club, American Museum of Western Art, Médicos sem Fronteiras e uma grande quantidade de abrigos de moradores de rua e programas de prevenção a vítimas de violência doméstica.

Um advogado da Anschutz disse à Billboard: “Há um ano fizemos uma declaração pública afirmando que apoiamos os direitos de todas as pessoas, sem distinção de orientação sexual. Mantemos a mesma opinião e reafirmamos o compromisso feito naquele momento de que a Fundação Anschutz não financiaria qualquer organização que apoiasse iniciativas anti-LGBT.”

“Durante o último ano, a Fundação parou de financiar certas organizações depois que tivemos conhecimento de suas atividades e de que elas não eram compatíveis com nossos valores. É um processo contínuo, no qual investigamos as organizações que apoiamos, pois alguns desses grupos podem ter iniciativas que tiram o foco dos objetivos que motivaram com que a Fundação os apoiasse.”

A Billboard teve acesso a uma declaração de imposto da Fundação Anschutz e conduziu uma análise independente das doações para caridade feitas pelo grupo no ano de 2016. Nessas informações há o grupos apoiados pela fundação antes da revelação que Antschutz contribuiu com três grupos anti-LGBT entre 20120 e 2013: US$110.000 para a Alliance Defending Freedom, US$50.000 a National Christian Foundation e US$30.000 para a Family Research Council.

Na época, ele disse que as acusações de que ele era homofóbico eram “notícias falsas” e “lixo”, declarando que “inequivocamente apoia os direitos de todas as pessoas, sem qualquer distinção a suas orientações sexuais.”

Nenhum desses grupos receberam doações da Fundação Anschutz em 2016, de acordo com a declaração de imposto, confirmando a declaração de Anschutz de que ele “cancelou imediatamente as contribuições” a essas organizações, uma vez que ele soube que elas apoiavam causas anti-LGBT.

Mas Anschutz fez uma doação de US$200.000 em 2016 para a Focus on the Family, uma organização que se opões ao casamento gay e é considerada anti-LGBT devido a sua oposição contra a proteção à vitimas de discriminação e por declarações públicas anti-LGBT, como a de que casais do mesmo sexo são maus pais.

Anschutz também doou US$305.000 para a Colorado Christian University, uma universidade particular que encorajou seus alunos a boicotar o filme “A Bela e a Fera”, devido a um “momento exclusivamente gay” da obra; também doou US$50.000 a Dare to Share, um ministério religioso liderado pelo pastor anti-gay Greg Stier. Ele também fez doações para grupos como a Federalist Society (US$50.000), que se opõe a proteções dadas a indivíduos LGBT e publicou artigos declarando que “O primeiro assassinato de um trans em 2018 não foi um crime de ódio” e “O aumento no numero de homicídios anti-LGBT são notícias falsas”.

Anschutz doou US$100.000 para a Heritage Foundation (Fundação da Herança), que se opões ao casamento de pessoas do mesmo sexo; US$25.000 a American Legislative Exchange Council, que distribui modelos de lei que permitem que negócios privados possam discriminar os LGBT; e US$40.000 a um grupo em Colorado Springs chamado The Navigators, que prega a cristandade e criticou gays e lésbicas no passado.

A declaração de imposto de Anschutz também mostra apoio a causas conservadoras: US$75.000 para a National Right to Work Legal Defense Foundation, anti-sindicatos; US20.000 para Enough is Enough, um grupo que quer restringir o acesso dos jovens à pornografia; e US$15.000 a Denver’s Alternatives Pregnancy Center, que oferece um procedimento chamado “terapia reversa da pílula do aborto.”

O advogado de Anschutz deu uma declaração em sua defesa: “Naquela ocasião, ficamos cientes de que alguns grupos apoiados anteriormente pela Fundação, poderiam ter políticas ou práticas preocupantes em relação à comunidade LGBT.

Nessas situações, lidamos com essas preocupações para determinar se qualquer organização que apoiamos tem posições ou práticas que são de intolerância ou discriminatórias com a comunidade LGBT. Se encontrarmos atividades problemáticas, primeiro tentamos trabalhar com essas organizações para efetuar uma mudança positiva, se notamos que eles estão abertos a isso. Mas se isso não der resultado, retiramos qualquer apoio a esses grupos.”

As contribuições de Anscutz ainda apoiaram outras causas conservadoras. Em 2016, sua fundação gastou US$210.000 com um grupo chamada Smart Approaches to Marijuana, uma organização sem fins lucrativos em Alexandria (Virginia), que educa “o público sobre os males da legalização e comercialização da maconha.”

No início de 2016, o Coachella anunciou que a maconha não seria permitida dentro do festival, apesar de uma nova lei na Califórnia que descriminalizava a manha e permitia a venda para uso recreativo de produtos relacionados a cannabis. Um representante da Goldenvoice, que não quis ser identificado, disse à Billboard que foi o fato da lei ser nova, e não as crenças de Anschutz, que fez com que o festival mantivesse a proibição da maconha, enquanto os promotores de shows estudam as leis estaduais, que ainda banem o consumo público.

Enquanto a Fundação Anschutz realmente apóia frente conservadoras como a American Enterprise Institute, a grande maioria do dinheiro doado foi para instituições culturais como a Colorado Symphony, abrigos para mulheres e programas de prevenção à violência doméstica, saúde infantil e iniciativas de ensino, esforços para proteção do meio ambiente e grupos como Médicos Sem Fronteiras e a Gary Sinise Foundation, que ajuda veteranos de guerra norte-americanos.

Na verdade, 36% do dinheiro gasto pela fundação em 2016 para diferentes programas acadêmicos e de pesquisa da Universidade do Colorado, e muitas outras de altos valores foram para caridade sem ligações políticas, como a Random Acts of Kindness Foundation (que recebeu US$1.7 milhões), ou instituições públicas como a Denver Public Schools, que recebeu US$ 287.000.

As doações políticas feitas por Anschutz foram particularmente um assunto estressante para seus sócios nos festivais. Quando o co-fundador do Coachella Paul Tollett soube das doações a grupos anti-LGBT no ano passado, ele disse a um repórter do New Yorker que essas acusações eram suficientes para afundar o festival, que arrecadou US$115 milhões em 2017.

“É melhor que ele diga ‘De jeito nenhum’. Ninguém quer acordar com uma noticia que diga que ‘O dono do Coachella é anti-gay.’”

Tollet disse que ficou preocupado com a hashtag “Boicotem o Coachella” e com a pressão às bandas para que abandonassem o festival. “Fiquei ofendido”, e acrescentou que ficou preocupado que o público ficasse confuso sobre o envolvimento de Anschutz no evento. “Eu comando o festival, mas não é legal dizer isso quando se faz isso em parceria com alguém.”

Uma fonte na Goldenvoice disse que apesar da publicidade negativa, nenhum artista abandou qualquer evento por causa das doações de Anschutz.

Fonte: Billboard