SEGURANÇA x TERRORISMO NO ENTRETENIMENTO AO VIVO: É PRECISO FALAR SOBRE O ASSUNTO

Por Juliana Mello
Gestão de Conteúdo – ON STAGE LAB
Colaboração especial: Alexandre “Sombra”

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Foto: Darren Staples/Reuters

Meu pai já dizia: melhor pecar pelo excesso. E assim deveria ser a segurança em shows e espetáculos ao vivo, em entretenimento de maneira geral. Há menos de 24 horas, a cidade de Manchester, no Reino Unido, viveu momentos de grande horror. O que era para ser uma noite de diversão, alegria e celebração, virou uma noite de caos, tristeza e impotência diante de mais um ato de terrorismo durante um show.

Em novembro de 2015, na França, o Estado Islâmico já havia sinalizado um novo modus operandi: os ataques que outrora miravam embaixadas, reuniões políticas, monumentos ou transporte coletivo deram lugar a ataques ainda mais cruéis, ao pegar grupos de pessoas desprevenidos porque estão em um momento de lazer, despreocupados, distraídos com um jogo de futebol, um café, um show de rock. É uma nova era do terrorismo. E se refletirmos por um instante, é uma era ainda mais triste, porque suas vítimas não estão esperando por isso. Elas estão em uma boate, estão jantando com seus familiares, estão bebendo com amigos. Ninguém esperava que o setor de entretenimento seria tão ferido como vem sendo ao longo dos últimos dois anos.

A ON STAGE LAB teve, não há muito tempo, uma mesa de debates justamente sobre esse assunto: a segurança em shows. Entre nossos convidados, estiveram presentes o especialista em gerenciamento de multidões Paulo Dalle, Cesar Takaoka, fornecedor de barricadas e produtor, além de nosso convidado especial Gio Gasparetti, segurança que já esteve em 90 países e conhece muito dos principais tipos de públicos e seus comportamentos. O trio abordou segurança e controle de multidões, desafios, casos de sucesso, diferenças culturais nos países e estratégia e comportamentos de segurança para cada tribo e ambiente. Presentes estavam os melhores seguranças artísticos do país, que nos auxiliaram a levantar a bandeira da melhoria da segurança em shows e espetáculos ao vivo. E mais debates como esse deveriam ser feitos no mundo inteiro, em especial com a crescente ameaça terrorista direcionada a esse nicho, o de diversão.

Na noite passada, um ataque terrorista aconteceu no Manchester Arena, ao final da apresentação da cantora pop Ariana Grande, atualmente em início de turnê mundial – com datas até o momento confirmadas na América do Sul, incluindo o Brasil. Às 22h35, uma forte explosão foi ouvida pelo público e o tumulto começou. Em meio ao pânico, filhos perderam-se dos pais, atropelaram-se, correram desesperados. Até o fechamento desse texto, a polícia britânica confirmou 22 mortos e cerca de 59 feridos, mas a investigação ainda está muito no início. Foi encontrada ainda uma segunda bomba em um jardim de uma catedral, próxima à estação de trem que normalmente recebe o fluxo de pessoas do local do show. O esquadrão antibomba local executou uma explosão controlada do dispositivo, mas ficou clara a intenção de machucar mais pessoas. A cantora saiu do local às pressas, e, de acordo com relatos, aparentemente transtornada com o que acabara de acontecer.

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Foto: Andrew Yates/Reuters

As primeiras informações dão conta de um ataque suicida. Um homem parece já ter sido identificado como provável homem-bomba. O Estado Islâmico assumiu a autoria do atentado há poucas horas.

Até onde se tem notícia, e, de acordo com o relato de uma fã que esteve no show de Ariana Grande na noite passada, após o público, que já se dirigia às saídas, ouvir a explosão, não houve nenhum tipo de anúncio ou orientação nos alto-falantes do Manchester Arena para que a evacuação do público que ainda permanecia no local acontecesse de forma ordenada, com calma. Outro relato diz que bolsas e mochilas não foram revistadas na entrada do show. E a imprensa diz que a administração do venue dá conta que a explosão aconteceu na chamada “venue soft area”, ou seja, nos entornos, em local público. É um sinal de que promotor ou venue não estão assumindo responsabilidade direta pela segurança do local exato onde a explosão aconteceu. É provável inclusive que o alvo não tenha sido o lado de fora do Manchester Arena. O terrorista pode sim ter previsto que seria revistado em algum momento e decidiu detonar o explosivo antes, fazendo o máximo de vítimas possível já que sua entrada no local pode ter sido impossibilitada.

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Foto: Peter Byrne/PA via AP

Apesar do visível aumento de segurança em estádios, eventos culturais públicos e locais de concentração de pessoas aos finais de semana ao redor de todo o mundo, vemos o mercado assistir quase que em silêncio um atentado terrorista atrás do outro. A impressão que se tem, ao menos até aqui, é que os governos dos países que sofreram com esse tipo de ataque são os únicos responsáveis pela segurança dos seus cidadãos. E nós, do mercado, devemos nos sentir compelidos a realizar um trabalho ainda mais apurado, com muito mais afinco e capricho do que já realizamos. Entregar grandes shows, lindos espetáculos e experiências inesquecíveis aos fãs é algo fácil frente aos desafios de segurança que se colocam diante do setor, especialmente após o que penso ser um dos eventos mais absurdos e brutais do terrorismo. Foi preciso um nível de crueldade bastante elevado para fazer crianças e adolescentes de alvo de um conflito do qual elas não fazem parte. Crianças não possuem envolvimento político-social ou religioso para serem consideradas alvo. Isso corta o coração de fãs, pais e profissionais do meio.

Sim, é um imenso elefante cor-de-rosa, cheio de bolinhas amarelas, numa sala repleta de cristais. Precisamos falar sobre ele.

É preciso firmar parcerias sérias e determinadas entre promotores e agentes públicos de segurança. São necessárias políticas de restrição dos entornos dos locais de show, revistas mais detalhadas, melhores avaliações de riscos. É imperativo o treinamento e capacitação de seguranças, não só em procedimentos – em princípio, considerados simples – como revistas, mas na compreensão do planejamento e da implantação de espetáculos ao vivo e de eventos culturais com concentração de público em geral. Investimento em segurança e em treinamentos para evacuação em caso de incidentes como esse nunca é demais. As responsabilidades precisam ser divididas para que haja uma força coesa, capaz de prevenir eventos como esse em Manchester. E talvez não seja possível impedir um ataque terrorista, mas é possível sim diminuir riscos e melhorar planos de evacuação.

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No Brasil, apesar de problemas pontuais como revistas e filas nos shows, a segurança artística e de entorno dos venues ainda “pecam pelo excesso”. Acreditem ou não, em diversos shows por aqui, são pedidas visitas de esquadrões antibomba locais para checar os entornos dos venues e seu interior. Abaixo, vemos algumas imagens de uma dessas inspeções, feitas pelo esquadrão antibomba no estádio do Morumbi, antes do show dos Rolling Stones, no ano passado.

Vídeo cedido por Alexandre “Sombra”.

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Esquadrão antibombas faz vistoria nos entornos de palco antes da apresentação do The Rolling Stones. Foto cedida por Alexandre “Sombra”.

 

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Homens do esquadrão antibombas após a vistoria do estádio. Foto cedida por Alexandre “Sombra”.

Não precisamos de alvos similares para passarmos a planejar com ainda mais esmero e carinho a segurança dos fãs que frequentam shows. São nossos amigos, pais, irmãos e filhos, em qualquer lugar do mundo. Vamos falar sobre o assunto sem esperar que algo assim aconteça novamente. Como profissionais do entretenimento ao vivo, somos treinados desde nossos primeiros jobs a antecipar problemas e encontrar planos alternativos: plano B, C, D… Está na hora de completarmos esse abecedário para mantermos o entretenimento como um mercado vivo, forte e que encoraja sonhos e inspira pessoas com música, dança, teatro, artes.

A ON STAGE LAB sente pelo que aconteceu com as crianças de Manchester e espera por dias melhores. Estamos de portas abertas para receber discussões, soluções e passarmos adiante para as próximas gerações que estão galgando seus degraus nessa carreira. O show precisa continuar!

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