[Semana da Produção] Produtor Zen – Marcelo Falcão

Vida de produtor exige equilíbrio mental e discernimento. Falcão é um desses caras que conseguem driblar a ansiedade com senso de humor no meio de uma grande produção. Produtor executivo e Production Manager com mais de 12 anos de experiência em uma gama enorme de shows, desde Rod Stewart ao Festival SWU, é hoje um dos principais nomes do showbusiness no Brasil. É também sócio fundador da PROD4U, empresa voltada para a prestação de serviços na área de planejamento e desenvolvimento de projetos, produção executiva, coordenação de montagem e direção técnica.
Equipe de produção na turnê da Beyoncé

Equipe de produção na turnê da Beyoncé

On Stage Lab:  Como você “caiu” no Showbusiness? Você fazia outras coisas antes?
Marcelo Falcão: Eu produzia Raves desde 1998, já estava no mundo do ShowBusiness mas de uma forma bem mais precária, em 2003 cai no nesse mercado, pois promovia uma noite de música eletrônica no Extinto Club Manga Rosa, em SP, conheci o João Paulo Affonseca que na época era Sócio do Manga, e comecei a trabalhar com ele em alguns eventos. Ele ficou sócio do Willian Crunfli, abriram a MONDO ENTRETENIMENTO e eu estava no lugar certo na hora certa. Meu primeiro evento do Showbusiness foi o Chimera de 2004 como produtor de área Vip.
 
OSL: Qual foi o maior impacto deste universo?
MF: O profissionalismo das produções me encantou, e pensei comigo mesmo, é isso que quero para minha vida.
 
OSL:  Conte um pouco sobre sua trajetória, em uma linha do tempo resumida.
MF: Comecei como produtor de área Vip e passei por todas as áreas do evento (Segurança, Postos Médicos, Brigada, Artístico, Técnica, Financeiro, Montagem, Operação, Geradores, Acesso e várias Tours), isso me deu a experiência para fazer o que faço hoje como Produtor Executivo ou Diretor Técnico.
 
OSL:  Você teve algum mentor em seus anos de showbusiness?
MF: Nico Gomes foi uma pessoa chave que acreditou em mim e me colocou nas turnês com um Inglês praticamente inexistente, pois estudei nos Estados Unidos em 1994 e só fui trabalhar em 2004. Em 2006 fui assistente dele no U2 Vertigo tour, tenho diversas histórias engraçadas, pois meu inglês ainda era capenga, me fizeram passar vergonha com os gringos no rádio, mas isso só fez com que eu quisesse crescer na minha profissão. Outros grandes mentores da minha profissão cada um com suas devidas proporções João Paulo Affonseca, William Crunfli, Cesar Takaoka, Fabiana Lian, Cesar Favaro, Fabiana Polastri, Phil Rodrigues, Fabiano Queiroz, Maurice Hughes, Fernando Henriques, Francisco Dourado, Luiz Oscar Niemeyer, Caio (LPL),Carlão (Transhow), o Gabi (GabiSom), Chrispim, enfim cada uma dessas pessoas me passaram qualidades que levo hoje para minha vida profissional e pessoal.
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Produção da turnê do KISS

 
OSL: Qual o desafio de gerenciar festivais aqui.
MF: Dificilmente temos um budget predeterminado que dê para trabalhar com tranquilidade. Vivemos da venda de ingresso. Dependemos da cotação do dólar. O maior desafio normalmente é financeiro. Aprovações e contratações de última hora. É trabalhar sempre na pressão, com prazo explodindo. Nós produtores vamos aprendendo a lidar com situações adversas, é o famoso jeitinho Brasileiro.
 
OSL:  SWU foi um caso à parte, era um evento de proporções nunca vividas aqui. Como foi estar à frente desta produção? 
MF: SWU deu início a uma nova fase no cenário do Showbusiness Brasileiro, pois foi um festival que juntou todos os estilos de música em 3 dias com um camping interno, que era uma coisa muito longe da realidade do Brasil. A experiência de gerenciar uma festival como esse só é possível com as equipes competentes e muito tesão pelo que faz. Ninguém faz nada sozinho. As equipes que trabalharam nesse festival são hoje grandes amigos, pois passaram 1 mês juntos acreditando que tudo daria certo. O primeiro dia foi um caos, pois o guitarrista do Rage Against The Machine, Tom Morello, soltou nas mídias sociais para todos invadirem a área VIP, que ficava na frente do palco, com isso tivemos problemas na barricada, que começou a ceder e a noite foi turbulenta, mas para o público que estava lá foi com certeza o melhor show que já foram na vida. Segundo dia foi bem mais tranquilo, e o terceiro dia do festival foi quase perfeito.
Os estragos causados pelo tufão que passou por Paulínia logo antes do SWU 2011

Os estragos causados pelo tufão que passou por Paulínia logo antes do SWU 2011

 
OSL: Na 2a você já não enfartou (risos). O que você repetiu na 2a edição, e o que você descartou?
MF: Na primeira edição do SWU, 3 dias depois do festival eu enfartei, e aprendi que não se pode abraçar o mundo com as mãos, você precisa de muitos braços para isso. Deleguei mais e de maneira mais firme e segura. Mas tudo o que passei na primeira edição só me deu mais forças para começar o planejamento do segundo ano de festival, que foi um sucesso total. Em todas as áreas só tivemos uma contratempo que aconteceu 10 dias antes do festival, passou um tufão por Paulínia, que derrubou praticamente tudo que já estava pronto, mas como no primeiro ano do SWU, a equipe que tinha o mesmo objetivo, o sucesso do festival, e com amizade e profissionalismo conseguimos colocar o festival em pé de novo e terminamos com um sucesso absoluto.
OSL:  Que outros festivais você acha que são emblemáticos para o país? E quais as alegrias e durezas em trabalhar neles?
MF:  Festivais hoje que são exemplo para o país, Rock in Rio, Lollapalooza e Tomorrowland. Tive o prazer de participar de alguns desses projetos, mas hoje não fico mais triste de não participar, pois sempre temos alguma amigo na produção e torcemos para o sucesso, pois isso fortalece a cena como um todo.
 
OSL:  Morar no Rio para um paulista durante o Pan foi tranquilo? Que ginásticas você fez para se adaptar?
MF: O início foi bem difícil, pois é uma outra realidade, o carioca é muito diferente do paulista nas questões de serviços e o jeitinho carioca de levar a vida, mas você vai se adaptando e no final não queria voltar de jeito nenhum para São Paulo. 
 
OSL: Já trabalhou fora do Brasil? Como foi?
MF: Sim, algumas vezes. É sempre uma experiência de vida poder trabalhar com outras culturas, formas diferentes de dividir e executar a produção em um todo.
 
OSL:  Na hora de lidar com a equipe, como você mantém as pessoas produzindo bem?
MF: Eu sou muito fácil de se trabalhar, quem me conhece como chefe sabe do que estou falando, tento sempre resolver e escutar os produtores o mais rápido possível, para que o problema não se estenda e vire um problema maior.  Sempre deixo as pessoas terem liberdade em executar a função designada, mas quando não estou satisfeito com o trabalho da pessoa, faço ela pensar no que está fazendo de errado. Ser líder é uma das funções mais difíceis dentro da produção, gerenciar pessoas e egos, tem que ter muito cuidado como conduzir. Sempre acho que dar valor ao trabalho só agrega na entrega ao cliente. 
OSL:  Na sua opinião o que foi importante para impulsionar sua carreira?
MF: Sempre fui cercado de grandes mestres e grandes alunos, com isso tive um aprendizado diário e ainda continuo aprendendo a cada evento. E como mencionei anteriormente, eu estava no lugar certo na hora certa.
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OSL: Como seria sua vida sem o Showbusiness?
MF: Não imagino
 
OSL: Que momento você queria apagar?
MF: Eu poderia dizer o tufão do segundo SWU, mas com isso começo a enxergar que tudo tem um propósito, então penso que não quero apagar nada que passei nesses anos de produção.
 
OSL: E do que você  mais se orgulha?
MF: Dos amigos que vamos fazendo nessa vida estressante, mas muito prazerosa.
 
OSL:  O que é a Prod4u? Em que momento você achou que era hora de montar uma empresa e como vocês funcionam?

MF: E a fusão de 4 profissionais com intuito de prestar serviço para todos os tipos de evento, visando estabelecer e executar um padrão simples e financeiramente viável para cada projeto. Buscamos a maior qualidade no serviço prestado e executamos os trabalhos focados na excelência da entrega. Tudo foi acontecendo, quando vi surgiu a necessidade de um local para que pudéssemos nos reunir e produzir, pois ja trabalhávamos há mais de 5 anos juntos, nossas reuniões eram praticamente diárias com Skype e crianças correndo no fundo. Hoje prestamos serviços para diversas agências, desde reuniões e palestras a grandes festivais. Nosso trabalho é unir pessoas, criar métodos e organizar processos, transformando ideias em ações. Atuamos no planejamento e desenvolvimento de projetos, produção executiva, coordenação de montagem e direção técnica.

OSL:  Como você equilibra a vida pessoal com  o trabalho?
MF: Esse é um ponto difícil na vida de uma produtor, pois temos que estar sempre viajando, então hoje tento ficar o máximo que consigo em SP para acompanhar o crescimento dos meus filhos, mas não e tão fácil como imaginamos.