Toda novidade traz resistência. Você está puxando a ré ou o acelerador?

Por: Fabiana Lian

Evoluir é bom, né? Pena que nunca acontece sem dor de cabeça.

O episódio da chegada do Phil Collins, em 21 de fevereiro, trouxe uma importante novidade à tona: Profissionais de cultura ou esportes, vindos de países com acordo de reciprocidade diplomática com o Brasil, tem visto de visitante por 90 dias.

No caso de artistas, a produção não precisará ir a um consulado brasileiro estampar seu visto durante a turnê. Cortamos metade da burocracia para bandas inglesas, francesas, alemãs. UAU, que ótimo!

A novíssima Lei de Migração e artigo 29 do Decreto 9.199/2017* (abaixo), aprovada em novembro gerou uma confusão na chegada do artista no aeroporto.

Os diversos oficiais de imigração presentes liberaram a equipe técnica, a banda de abertura The Pretenders. O oficial que
recebeu o artista, teve um entendimento diferente da lei no momento. E o fez esperar por mais tempo na área de imigração até que ficasse claro.

Um preço alto de adaptação da novidade. Phil Collins que deveria sair, como nós aqui na produção artística amamos, da maneira mais expressa possível, tomou um chá de cadeira, sob a indiscutível autoridade da imigração. A interpretação foi finalmente revertida e o artista liberado.

Faz parte! Entendimentos, debates, discussões, alinhamentos. Isto é crescimento. Deu dor de estômago, stress, mas tudo ficou bem no final. E, o melhor: Já ficamos todos os produtores e promotores de shows do Brasil sabendo da nova lei e preparados para nos precaver de quaisquer futuras interpretações ou enganos.

Quero falar sobre outra coisa que este fato nos mostrou. Algumas dezenas de profissionais da área aproveitaram o momento para fazer auto-promoção com frases do tipo: “Se fosse um show meu, isso não aconteceria!”, antes de entender o que havia acontecido de fato. Antes de se informar melhor, antes de pensar em solidarizar-se e entender a fundo o que havia saído
errado e não havia nada que tenha deixado de ser feito, nada negligenciado. Foi apenas parte do preço do desbravamento.

Era o primeiro de muitos shows sob a nova lei. Estamos sujeitos a percalços o tempo todo.

Quem aqui nunca passou por uma situação embaraçosa, complexa onde precisamos usar de empatia, destreza, criatividade e paciência?

Do que nos ajuda, além de alguns likes e comentários, sairmos detonando colegas de profissão? Em dois ou três dias ficará clara a desinformação do dono do perfil. Mais do que isso, é mais um desserviço, dos muitos que criamos sem perceber para a evolução da nossa indústria.

Precisamos manter sempre em perspectiva a saúde do nosso mercado. Precisamos de maturidade para refletir 15 minutos sobre o assunto antes de aproveitar a chance de aparecer para os “parças da internet”. Isto evapora rápido e o ambiente onde atuamos estará aí por muito tempo. Podemos garantir a longevidade e integridade dele discutindo de forma consistente e nos unindo para compreender e aprimorar as novas diretrizes, tecnologias, procedimentos.

Curiosamente, a única matéria tranquilizadora saiu em Londres, na IQ, uma publicação importante para o entretenimento ao Vivo, com entrevista do John Giddings, um dos profissionais mais respeitados do showbusiness e, que estava aqui no país durante a turnê.

Aqui na On Stage Lab acreditamos que nosso trabalho é duro o suficiente para perdermos tempo com fogos de artifício.

É tempo de olharmos mais seriamente para o que fazemos hoje para construirmos um palco mais interessante para todos atuarmos.

IQ Magazine

ERRO SOBRE O VISTO DE PHIL COLLINS NO AEROPORTO DO RIO DE JANEIRO
Apesar das notícias locais mencionarem a falta do visto de trabalho para seus shows no Brasil, o agente John Giddins diz que as autoridades da imigração se enganaram. A parte sul-americana da turnê “Not Dead Yet”; de Phil Collins, começou
mal, quando o cantor ficou preso no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, por uma confusão sobre o status do seu visto.

Collins, que voltou a fazer shows após um hiato de sete anos, ficou preso pelas autoridades brasileiras por três horas no dia 21 de fevereiro porque, de acordo com o noticiário local, ele não tinha um visto de trabalho. No entanto, esse não foi o caso. De acordo com seu agente John Giddings, da Solo Agency, que disse à IQ que Phil tinha o visto correto, mas que a equipe do período noturno na imigração, do Rio de Janeiro, não sabia que as regras mudaram.

No final, tudo deu certo!

Uma nova lei de imigração está em vigor no Brasil desde Novembro de 2017, com o intuito de, entre outras coisas, simplificar o processo pelo qual estrangeiros entram no país.

Collins tocou no Maracanã no dia 22 de fevereiro, antes de se apresentar em São Paulo, Porto Alegre, México, Peru, Chile, Uruguai e Argentina, terminando sua turnê no dia 23 de Março em San Juan (Porto Rico).

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*Resumo e trecho da Lei:
Lei de Migração e artigo 29 do Decreto 9.199/2017, o qual afirma que o visto para atividades artísticas com estadia no Brasil de até 90 dias é o visto de visita e, no caso de artistas que sejam naturais de países que mantenham o acordo de reciprocidade ficam dispensados do visto.

“Art. 29.  O visto de visita poderá ser concedido ao visitante que venha ao país para estada de curta duração, sem intenção de estabelecer residência, para fins de turismo, negócios, trânsito, realização de atividades artísticas ou desportivas ou em situações excepcionais, por interesse nacional.

         § 2o  Para os fins do disposto neste artigo, as atividades relativas a turismo compreendem a realização de atividades de caráter turístico, informativo, cultural, educacional ou recreativo, além de visitas familiares, participação em conferências, seminários, congressos ou reuniões, realização de serviço voluntário ou de atividade de pesquisa, ensino ou extensão acadêmica, desde que observado o disposto no § 1o e que a atividade realizada não tenha prazo superior àquele previsto no art. 20.

§ 6o  O Ministério das Relações Exteriores comunicará o Ministério do Trabalho sobre os vistos de visita emitidos para realização de atividades artísticas ou desportivas, para realização de auditoria e consultoria, ou para atuação como marítimo, e informará os subsídios financeiros a serem recebidos pelo visitante.

§ 9o  O beneficiário de visto de visita poderá receber pagamento do governo, de empregador brasileiro ou de entidade privada a título de diária, ajuda de custo, cachê, pró-labore ou outras despesas com a viagem, além de poder concorrer a prêmios, inclusive em dinheiro, em competições desportivas ou em concursos artísticos ou culturais.”