VIDA DE ALUNO: A CLASSE ENTREVISTA RICARDO RODRIGUES

Os alunos do curso Showbusiness estão estudando carreiras de artistas e colocaram uma lupa sobre a carreira de Liniker, artista, além da arte, que vem traduzindo para a gente e apontando o caminho para uma nova era. Entrevistamos Ricardo Rodrigues, o empresário que comprou o pacote todo e planeja a carreira da banda, além de estar a frente do festival Contato, um dos mais descolados do Brasil.

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ALUNOS OSL: Antes de ser produtor do Liniker, você teve outras experiências no segmento com outros artistas? Quais?
RICARDO RODRIGUES: Atuo na música profissionalmente desde 2005. Minha carreira começou atuando como produtor cultural independente em São Carlos e no processo de implantação da Rádio UFSCar, do qual tive a oportunidade de atuar desde o início e ser nomeado seu Diretor Artístico desde seu primeiro momento no ar em 2007. Neste mesmo ano lançamos o Festival CONTATO que acontece anualmente até hoje, do qual faço a direção artística. E em 2013 inauguramos o GIG, espaço cultural e casa de shows voltado à arte e cultura independente. Em 2015, eu saí do meu trabalho na Rádio UFSCar e iniciei a atuar também na área de agenciamento e gestão de carreiras através da Let’s GIG – Booking & Music Services, braço de produção do GIG. Os primeiros artistas que comecei a trabalhar foi com a banda instrumental Aeromoças e Tenistas Russas e com a cantora de folk Gabi Milino, em meados de 2015. Logo na sequência, em Outubro daquele ano comecei a atuar na gestão da banda Liniker e os Caramelows, antes mesmo da realização do primeiro show da banda.

ALUNOS OSL: Há quanto tempo você está na carreira? Atualmente, você enxerga desafios que antes não tinha? Como é sua rotina como produtor?
RICARDO: A minha atuação nesta carreira é muito recente, mas há mais de dez anos atuo em diversos outros segmentos do mercado musical e isso me possibilitou ter um grande panorama deste cenário. Através dos festivais e casa de show, pude viver o cotidiano como “comprador de shows”, e hoje estar do outro lado possibilita uma grande compreensão destes processos. O bom desenvolvimento tanto da carreira artística quanto da agenda de shows é complexo por depender de muitas variáveis. A principal dela, surge a partir de uma carência de investimentos em novos artistas e na dificuldade de garantir uma sustentabilidade a esses projetos no seu início, o que acaba por fazer com que muitas carreiras terminem mesmo antes de chegarem ao seu potencial criativo. São poucos investimentos públicos nas carreiras, ou nos demais setores que são base para que estes artistas mostrem seu trabalho como festivais independentes, casas de show de pequeno porte, veículos de comunicação independentes e ou públicos, entre outros. A rotina de produtor se divide basicamente em pesquisa e prospecção de oportunidades, gestão dos projetos em andamento e networking presencial em diversos espaços que possam gerar novos encontros, parcerias e negócios. No meu caso, esta rotina se divide entre o trabalho em equipe no escritório da Let’s GIG em São Carlos, uma grande parcela de home-office e a maior parte do tempo na estrada, seja acompanhando as bandas em circulação seja viajando para reuniões e encontros.

ALUNOS OSL: Quais foram as estratégias que você utilizou e/ou até hoje ainda utiliza para ultrapassar esses desafios? E, qual a sua maior função na carreira de Liniker?
RICARDO: A maior estratégia é desenvolver uma gestão de recursos ampla que entenda os momentos da carreira de cada artista e onde esses recursos devem ser investidos para que tragam rendimento a médio e longo prazo. E ao mesmo tempo garantir uma gestão dinâmica para o dia a dia onde evite desperdício de recursos financeiros e de força de trabalho. Além disso, é fundamental a compreensão ampla das fontes de recurso que um artista pode ter que vão além dos seus shows. Especificamente na carreira de Liniker minha principal função é a de gestão das oportunidades para chegar nos objetivos artísticos que artista e banda pretendem, conectá-los ao mercado da música de forma consistente para criar um projeto de longa duração sustentável, gerir a agenda de shows de forma a garantir uma circulação rentável e de logística saudável para o dia a dia da banda.

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ALUNOS OSL: Como você conheceu Liniker? Ela foi um artista que te surpreendeu desde o início? Foi necessário pensar em um planejamento estratégico diferenciado para ela?
RICARDO: Conheci Liniker através da banda que a acompanha. Alguns dos músicos já eram atuantes na cena independente, tanto como músicos através da banda Rélpis, quanto como produtores culturais de eventos e festivais de música e cinema em Araraquara. Desde que me mostraram o primeiro vídeo do projeto que estava por ser lançado foi um grande impacto sim, mas impossível imaginar a proporção que ganharia em tão pouco tempo. O impacto inicial que o projeto teve foi algo que quebrou com qualquer planejamento inicial que a banda tenha feito. Logo nas primeiras semanas do lançamento dos vídeos eu comecei a acompanhar a banda mais de perto, avaliando o desenvolvimento e começando a montar uma estratégia já baseada na receptividade das músicas, mas que ainda não tinha nem um show pronto. Sem dúvidas um planejamento especial, levando em consideração tanto a parte musical quanto a criação de uma estrutura de gestão e produção para o trabalho da banda.

ALUNOS OSL: Liniker é quebra de padrões do começo ao fim. Como você se adaptou a essa desconstrução? Afinal, você está a par de todos os passos do artista, certo?
RICARDO: Sim, é necessário acompanhar cada passo muito de perto, entretanto esta desconstrução é algo novo para todas pessoas envolvidas e mesmo para a própria Liniker, que até hoje está se conhecendo. Se permitir a ser uma pessoa em construção é uma das grandes características de Liniker e acredito que seja uma das grandes inspirações que ela deixa para quem a acompanha tanto de perto quanto de longe.

ALUNOS OSL: Atualmente são quantas pessoas na equipe de Liniker e qual a função de cada uma delas?
RICARDO: A equipe que atua na produção de Liniker e os Caramelows pode ser dividida em 3 grupos, a equipe de estrada, a equipe de produção e as equipes anexas que cuidam de setores específicos do projeto. A equipe de estrada completa é formada por 17 pessoas sendo: 9 músicos, 3 técnicos de som, 1 técnico de luz, 1 fotógrafa, 1 diretor cênico, 1 produtor de estrada e eu. A equipe de produção é formada por mais 6 pessoas, que fazem a produção de base das datas, gestão de merchandising, produção de conteúdo audiovisual e gestão administrativa. As equipes anexas são responsáveis pela Assessoria de Imprensa, Distribuição Física e Digital, Assessoria Jurídica e Agenciamento Internacional.

ALUNOS OSL: A agência Let’s Gig é especializada em artistas do cenário independente. Como esses artistas são inseridos no mercado do show business atual? Você enxerga esse mercado em âmbito nacional?
RICARDO: A inserção destes artistas no mercado musical é construída através de um planejamento estratégico que leva em consideração a proposta musical dos artistas, o público-alvo em potencial daquele trabalho, as estruturas organizacionais que a banda possui ou demanda para sua gestão, as parcerias em possíveis e o desenvolvimento dos setores de comunicação, produtos e conteúdos audiovisuais e textuais que possam ser criados a partir da mensagem daquele artista. Hoje existe um grande e prolífico mercado nacional para a música e que alcança um público cada vez maior. Entretanto a carência de políticas públicas estruturantes dificulta a quebra de algumas barreiras de profissionalização do setor. Sem este apoio seja público seja das instituições privadas é complicado que este mercado construa bases sólidas que deem sustentabilidade a um maior número de projetos artístico culturais. Entretanto, com criatividade e inovação, cada vez mais novos formatos de trabalho vêm dando base ao desenvolvimento de diversos artistas dentro de seus nichos e em alguns casos, rompendo fronteiras com o mainstream e atingindo uma base ampla de público.

ALUNOS OSL: Este ano Liniker se apresenta no SXSW, festival multicultural em Austin, pelo qual os artistas do mundo inteiro se inscrevem para participar. Vocês também o inscreveram ou rolou algum tipo de convite? Essa aprovação do festival era esperada por vocês?
RICARDO: Participar do SXSW foi a primeira e já intensa experiência internacional para a banda. Fomos convidados a participar do festival, mas também tivemos que nos inscrever para passar pela análise de toda a curadoria do evento, mas a aprovação já era esperada por nós. Atuamos desde o primeiro convite junto à produção do festival para garantir que tiraríamos o melhor proveito do evento e acredito que saímos com grandes conquistas de lá.

ALUNOS OSL: Outro grande anúncio foi o Rock in Rio que, a nosso ver, nas últimas edições não estava tão aberto a artistas independentes. Em sua concepção, Liniker abriu portas também para outros artistas como Johnny Hooker? É uma conquista para o mercado fonográfico?
RICARDO: A programação deste ano do Palco Sunset do Rock In Rio se mostrou bastante aberta a aproximar o evento destes artistas que já vêm rompendo a barreira do mainstream em atingindo um público que já está presente no Rock In Rio e ao mesmo tempo leva novos olhares para o evento. Acredito que o resultado do trabalho de uma série de artistas abriram este espaço e juntos eles são uma conquista dentro do mercado fonográfico, mas não que estes artistas almejam estar dentro deste mercado, mas sim mostrando que seus modelos de trabalho se fortaleceram e não podem mais ser ignorados pelos setores conservadores.

ALUNOS OSL: Esses shows só mostram que Liniker está ganhando visibilidade e, mais do que isso, espaço entre grandes nomes, como Elza Soares, artista da qual também já houve parceria entre ambos. Você acredita que a soma do talento com um bom planejamento é a receita para o artista se destacar dessa maneira?
RICARDO: Sem dúvida. Vemos muitos artistas muito talentosos não conseguindo desenvolver suas carreiras a longo prazo. O encontro perfeito é quando este talento encontra uma produção que possibilite seu desenvolvimento ao seu tempo, e não nos tempos de mercado, dessa forma possibilita-se um desenvolvimento sustentável financeiro mas especialmente psicológico e artístico, que possibilita a criação de pilares fortes.

ALUNOS OSL: Para finalizar, qual a sua expectativa, como produtor, do Liniker artista para os próximos cinco anos?
RICARDO: Estes dois primeiros anos tem sido de tantas surpresas e em um ritmo tão único que é difícil dizer o que deve acontecer nos próximos cinco anos. Até onde é possível planejar, acredito que serão anos de consolidação de Liniker como uma artista de sua geração e que ela ainda vai alcançar um número muito maior de pessoas. Acredito que serão anos de um engajamento político cultural muito importante no nosso País e artistas como ela terão um papel muito fundamental em garantir que o discurso da diversidade e da liberdade se amplie e mostre sua força em oposição aos discursos reacionários. Serão anos de luta, mas também de muita festa, ao celebrar a construção de uma sociedade mais justa e livre de preconceitos, onde arte e cultura serão a grande força de transformação.

Agradecimento aos alunos Victoria Ragazzi, Manoela Zeppone, Mariana Mori, Gisele Cristina Leite, Soraia da Silva Santos e Carolina Cordeiro, que enviaram suas perguntas.

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